ALBERT CAMUS




O ESTRANGEIRO


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                                                        Autor: Albert Camus
                                                        Ttulo: O Estrangeiro
                                                     Ttulo Original: L'tranger
                                                    Traduo: Antnio Quadros
                                                   Data Publicao Original: 1942
                                                         Digitalizao: 2000




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                      PRIMEIRA PARTE

Hoje, a me morreu. Ou talvez ontem, no sei bem. Recebi um
telegrama do asilo:
"Sua me falecida: Enterro amanh. Sentidos psames".
Isto no quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem.
O asilo de velhos fica em Marengo, a oitenta quilmetros de Argel.
Tomo o autocarro das duas horas e chego l  tarde.
Assim, posso passar a noite a velar e estou de volta amanh  noite.
Pedi dois dias de folga ao meu chefe e, com um pretexto destes, ele
no me podia recusar. Mas no estava com um ar l muito satisfeito.
Cheguei mesmo a dizer-lhe "A culpa no  minha". No respondeu.
Pensei ento que no devia ter dito estas palavras.
A verdade:  que eu no tinha que me desculpar: Ele  que tinha de
me dar psames. Mas com certeza o far, depois de amanh,
quando me vir de luto. Por agora  um pouco como se a me no
tivesse morrido. Depois do enterro, pelo contrrio, ser um caso
arrumado e tudo passar a revestir-se de um ar mais oficial.
Tomei o autocarro s duas horas. Estava calor. Como de costume,
almocei no restaurante do Celeste. Estavam todos com muita pena
de mim, e o Celeste disse-me "Me, h s uma".
Quando sa, acompanharam-m e  p o r t a . E s t a v a u m p o u c o
atordoado e tive que ir  casa do Manuel para lhe pedir emprestados
um fumo e uma gravata preta. O Manuel perdeu o tio, h meia
dzia de meses.
Tive que correr para no perder o autocarro. Esta pressa, esta
correria, e talvez tambm os solavancos, o cheiro da gasolina, a
luminosidade da estrada e do cu, tudo isto contribuiu para que eu
adormecesse no caminho. Dormi quase todo o tempo. E quando
acordei, estava apertado de encontro a um soldado, que me sorriu e
me perguntou se eu vinha de longe.
Disse que sim, para no ter que voltar a falar.
O asilo distava dois quilmetros da aldeia. Fui a p. Quis ver
imediatamente a me. Mas a porteira disse-me que eu precisava,
antes disso, de falar com o diretor. Como estava com pessoas,
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esperei ainda um pouco. Durante este tempo, o porteiro no parou
de falar. Depois, o diretor recebeu-me no seu gabinete. Um velhote,
que tem a Legio de honra. Fitou-me com uns olhos muito claros.
Depois apertou-me a mo durante tanto tempo, que j no sabia
como havia de a tirar. Consultou um processo e disse-me: "A
senhora sua me entrou para aqui h trs anos". "O senhor era o
seu nico amparo".
Julguei que me estava a fazer alguma censura e comecei a explicar-
lhe, mas ele interrompeu-me: "No tem nada que se justificar, meu
filho". Estive lendo o processo da sua me. O senhor no lhe podia
suportar as despesas. Ela precisava de uma enfermeira. O seu
ordenado  modesto. E, no fim das contas, aqui ela era feliz.
Disse: "Sim Sr. Diretor".
Acrescentou: "Sabe o senhor, aqui ela tinha amigos, pessoas da
mesma idade".
Partilhava com eles motivos de interesse que so de um
outro tempo. "O Senhor  novo, e ao p de si, ela aborrecia-se
com certeza".
Era verdade. Quando estava l em casa a me passava o tempo a
seguir-me em silncio com os olhos. Nos primeiros dias do asilo,
chorava muitas vezes: Mas era por causa do hbito. Ao fim de
alguns meses, choraria se a tirassem do asilo, ainda devido ao
hbito. Foi um pouco por isto que, no ltimo ano quase no a fui
visitar, E tambm porque a visita me tomava o domingo todo sem
contar o esforo para ir para o autocarro comprar os bilhetes e fazer
duas horas de viagem.
O diretor disse-me ainda mais coisas. Mas j quase no o ouvia. Em
seguida perguntou-me: "Julgo que agora, quer ir ver a sua me?".
Levantei-me sem dizer nada e acompanhei-o at  porta.
N a s e s c a d a s , e x p l i c o u -m e : " L e v a mo-l a p a r a a n o s s a
morgue particular. Para no impressionar os outros. Cada vez
que algum morre, os outros ficam nervosos durante dois ou
trs dias, o que torna o servio difcil".
Atravessamos um ptio onde havia muitos velhos, conversando em
grupos, uns com os outros. Ao passarmos, calavam-se.
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E atrs de ns as conversas recomeavam.
Dir-se-ia um papaguear atordoado de periquitos.  porta de
uma pequena construo, o diretor deixou-me.
"Deixo-o agora, senhor Meursault". Estou s ordens, no escritrio.
Em princpio, o enterro estava marcado para as dez horas da manh.
Pensamos que o Senhor podia assim passar a noite a velar.
Uma ltima coisa: parece que a sua me exprimiu vrias vezes aos
amigos o desejo de ter um enterro religioso. - Tomei  minha conta
este encargo. Mas queria p-lo a par.
Agradeci-lhe. Embora sem ser atia, enquanto viva a me nunca
pensara na religio: Entrei: Era uma sala muito clara, caiada, e
coberta por uma vidraa. Mobil iavam-na algumas cadeiras e
cavaletes em forma de X. Dois deles, ao meio da sala, suportavam
um caixo coberto.
Viam-se apenas parafusos brilhantes, mal enterrados, destacando-se
da madeira pintada de casca de noz. Perto do caixo estava uma
enfermeira rabe, de bata branca, com um leno colorido na cabea.
Neste momento, o porteiro entrou por detrs de mim. Devia ter
corrido: Gaguejou.
"Fecharam-no, mas eu vou desparafus-lo, para que o senhor a
possa ver". Aproximava-se do caixo, quando eu o detive.
Disse-m e : " N  o q u e r ? " R e s p o n d i : " N  o " . C a l o u -s e e e u
estava embaraado porque sentia que no devia ter dito isto. Ao
fim de uns momentos, ele olhou-me e perguntou: "Por qu?", mas
sem um ar de censura, como se pedisse uma informao. Eu disse:
"No sei". Ento, retorcendo os bigodes brancos, declarou sem olhar
para mim: "Compreendo". O homem tinha uns bonitos olhos azuis
claros e uma pele um pouco avermelhada. Deu-me uma cadeira e
sentou-se tambm, um pouco atrs de mim. A enfermeira levantou-
se e dirigiu-se para a porta. Neste momento, o porteiro disse-me: "O
que ela tem,  um cancro".
No percebi o que ele dizia, at reparar que a enfermeira trazia por
debaixo dos olhos uma ligadura que dava a volta  cabea. No stio
do nariz, no se via nenhuma salincia.
Apenas a brancura do penso, sobre a cara.
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Depois dela sair, o porteiro falou: "Vou deix-lo sozinho".
No sei bem que gesto fiz, mas deixou-se ficar em p, atrs de mim.
Esta presena nas minhas costas incomodava-me. A sala estava
cheia de uma bonita luz de fim de tarde. Dois besouros zumbiam, de
encontro  vidraa. E eu sentia-me invadido pelo sono. Disse ao
porteiro, sem me voltar para ele: "Est c h muito tempo?" Ele
respondeu imediatamente: "Cinco anos", como se estivesse desde
sempre  espera da minha pergunta.
Em seguida, ps-se a falar sem parar. Muito se teria espantado se
algum lhe houvesse dito, no seu tempo, que acabaria como porteiro
de um asilo, em Marengo. Tinha sessenta e quatro anos e era
parisiense. Neste momento interrompi-o:
"Ah, o senhor no  daqui?" Depois lembrei-me de que, antes de me
levar ao diretor, estivera a falar da minha me.
Dissera-me que era preciso enterr-la depressa, porque na plancie
fazia muito calor, sobretudo nesta terra. Fora ento que me confiara
ser de Paris e que dificilmente o esquecia. Em Paris fica-se com o
morto, s vezes trs ou quatro dias. Aqui no h tempo, mal nos
habituamos  idia e temos logo que correr atrs do carro funerrio.
A mulher dele dissera-lhe ento: "Cala-te, no so coisas que se
digam ao senhor". O velho corara e desculpara-se. Eu interviera
para dizer: "No, no..." Achava o que ele estava dizendo verdadeiro
e interessante.
N a p e q u e n a m o r g u e e l e confiou -m e q u e e n t r a r a n o a s i l o
como indigente. Como se sentia ainda vlido, oferecera-se para
o lugar de porteiro. Observei que, no fim de contas, era tambm um
pensionista. Disse-me que no. Tinha j reparado na forma como se
referia a eles, aos outros, e mais raramente aos velhos,
falando de pensionistas, alguns dos quais no eram mais velhos do
que ele. Mas no era a mesma coisa, evidentemente. Como era
porteiro tinha direitos sobre os outros, em certa medida.
A enfermeira entrou nesta altura. A tarde cara muito depressa.
Muito depressa, a noite escurecera, por detrs da vidraa. O porteiro
m a n e j o u o i n t e r r u p t o r e e u f i q u e i p o r momentos cego pelo

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aparecimento sbito da luz. Convidou-me para ir jantar ao refeitrio.
Mas eu no tinha fome.
Ofereceu-se, ento, para me trazer uma chvena de caf com leite.
Como gosto muito de caf com leite, aceitei, e ele voltou alguns
instantes depois com uma bandeja. Bebi. Tive ento vontade de
fumar. Mas hesitei, porque no sabia se o podia fazer diante da me.
Pensei, e conclu que isso no tinha importncia nenhuma. Ofereci
um cigarro ao porteiro e fumamos os dois.
A certa altura, disse-me: "No sei se sabia, mas os amigos da
senhora sua me vm tambm velar.  o costume. Tenho que
ir buscar cadeiras e caf." Perguntei-lhe se no se poderia apagar
uma das lmpadas. O reflexo da luz nas paredes brancas cansava-
me. Respondeu-me que no era possvel. A instalao fora assim
montada: ou tudo ou nada. A partir da, no lhe prestei muita
ateno. Saiu, voltou, arrumou as cadeiras nos seus lugares. Numa
delas, empilhou as chvenas em volta de uma cafeteira. Depois
sentou-se em frente de mim, do outro lado da me. A enfermeira
estava ao fundo, de costas. No via o que ela estava fazendo. Mas,
pelo movimento dos braos, parecia-me que fazia malha.
A temperatura era agradvel, o caf confortara-me e pela porta
aberta, entrava um cheiro de noite e de flores. Creio que adormeci
por alguns instantes.
Acordei, porque algum roou por mim. Por ter fechado os olhos, a
sala pareceu-me ainda mais branca. Na minha frente no havia uma
nica sombra e cada objeto, cada ngulo, todas as curvas se
desenhavam com uma pureza que me fazia mal aos olhos.
Foi nesse momento que entraram os amigos da minha me. Ao todo,
e r a m u n s d e z , e p a s s a v a m e m s i l  n c i o , n e s t a l u z t  o crua.
Sentaram-se sem que uma s cadeira rangesse. Eu via-os como
nunca vira ningum at ento e nem um pormenor das suas caras
ou dos seus fatos me escapava. No os ouvia, no entanto, e
custava-me a acreditar que tivessem realidade. Quase todas as
mulheres usavam um avental e o cordo que as apertava na cintura,
mais lhes realava a barriga inchada. Nunca havia notado que as
barrigas das mulheres velhas eram to grandes.
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Os homens eram quase todos muito negros e traziam bengalas.
O que me impressionava nas suas fisionomias, era que eu no
lhes via os olhos, mas unicamente uma luz sem brilho no meio de
um ninho de rugas. Quando se sentaram, a maioria deles olhou-me
e abanou a cabea embaraadamente, os beios comidos pelas
bocas desdentadas, sem que tivesse percebido ao certo se me
estavam a cumprimentar, ou se era apenas um tic. Julgo que
me c u m p r i m e n t a v a m . F o i n e s s e m o m e n t o q u e r e p a r e i q u e
estavam todos em frente de mim, balanando as cabeas, em volta
do porteiro. Por instantes tive a impresso de que estavam ali para
me julgar.
Pouco depois, uma das mulheres comeou a chorar. Estava
na segunda fila, escondida pelas outras, e eu no a via muito bem.
Chorava dando pequenos gritos, regularmente: parecia-me que
nunca mais pararia de chorar. Dava a idia que os outros no
ouviam. Estavam encolhidos, tristes e silenciosos. Olhavam o caixo,
a bengala ou qualquer coisa, e no tiravam os olhos desse nico
objeto. A mulher continuava a chorar. Eu estava muito admirado
porque no a conhecia. Gostaria de no a ouvir mais. No o ousava
dizer, porm. O porteiro debruou-se sobre ela, falou-lhe, mas ela
sacudiu a cabea, disse qualquer coisa, e continuou a chorar com a
mesma regularidade. O porteiro veio ento para o meu lado.
Sentou-se ao p de mim.
Ao fim de um longo momento, informou-me, sem me olhar:
"Era muito amiga da senhora sua me. Diz que era a nica amiga
que tinha e que agora, fica sem ningum".
Ficamos assim durante longos instantes. Os suspiros e soluos da
mulher iam-se fazendo mais raros. Por fim, calou-se.
Eu j no tinha sono, mas estava cansado e doam-me os rins.
Era o silncio de todas aquelas pessoas, que agora me era penoso.
De tempos a tempos, ouvia apenas um rudo estranho e no
conseguia compreender de que se tratava. Acabei por adivinhar que
alguns dos velhos chupavam o interior das bochechas, deixando
escapar estes barulhos esquisitos. Estavam to absortos nos seus
pensamentos, que nem davam por isso.
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Tinha mesmo a impresso de que esta morta, ali deitada,
nada significava para eles. Mas creio agora que se tratava de
uma impresso falsa.
Tomamos todos caf, servido pelo porteiro. Em seguida, no sei
mais nada. A noite passou. Lembro-me de que, a certa altura, abri
os olhos e reparei que os velhos dormiam dobrados sobre si
mesmos, com exceo de um nico que, de queixo encostado s
costas das mos, e com estas agarradas  bengala, me olhava
fixamente, como se estivesse  espera de me ver acordar. Depois,
voltei a adormecer. Acordei porque os rins me doam cada vez mais.
O dia surgia pouco a pouco atravs da vidraa. Logo a seguir, um
dos velhos acordou e tossiu muito.
Cuspia num grande leno de quadrados e cada um dos escarros era
como que um arranque.
Acordou os outros e o porteiro disse-lhes que se deviam ir embora.
Levantaram-se.
Esta viglia incmoda tinha-lhes dado s caras uma cor de cinza. 
sada, e com grande espanto meu, vieram-me todos apertar a mo -
como se esta noite em que no havamos trocado uma s palavra,
tivesse aumentado a nossa intimidade. Estava cansado. O porteiro
levou-me ao quarto dele, e pude lavar-me e pentear-me. Voltei a
tomar caf com leite, que era timo.
Quando sa, o dia estava completamente levantado.

Por cima das colinas que separam Marengo do mar, o cu estava
cheio de tonalidades de vermelho. E o vento, que passava por cima
delas, trazia um cheiro de sal. Era um bonito dia que se estava a
preparar. H muito tempo que no vinha ao campo e teria tido
imenso prazer em passear, se no fosse a me. Mas pus-me 
espera no ptio, debaixo de uma rvore.
Respirava o odor da terra fresca e j no tinha sono. Pensei nos
colegas do escritrio. A esta hora levantavam-se para ir para o
trabalho: para mim, era sempre a hora mais difcil.
Pensei um pouco mais nestas coisas, mas um sino que tocava
no interior dos edifcios distraiu-me.
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Houve uma confuso de movimentos por detrs das janelas,
e depois tudo se acalmou. O sol estava um pouco mais alto:
Principiava a aquecer-me os ps. O porteiro atravessou o ptio e
veio dizer que o diretor estava  minha espera. Fui ao escritrio
deste.
  Mandou-me assinar vrios documentos. Reparei que estava vestido
de preto, com calas de fantasia.
  Pegou no telefone e dirigiu-m e a p a l a v r a : " O s e m pregados
da agncia funerria j c esto. Vou-lhes dizer para fecharem
o caixo. Quer ver a sua me pela ltima vez?" Disse que no.
Baixando a voz, deu uma ordem pelo telefone:
  "Bigeac, diga aos homens que podem ir".
  Disse-me, em seguida, que assistiria ao enterro..
Agradeci-lhe: Sentou-se por detrs da secretria e cruzou as pernas.
Informou-me que estaramos ss, eu e ele, apenas com a presena
da enfermeira de servio. Em princpio, os pensionistas no deviam
assistir aos enterros. Deixava-os apenas velar: "uma questo de
humanidade", observou. Mas excepcionalmente, dera autorizao
para seguir o prstito a um velho amigo da minha me: "Toms
Perez". Aqui, o diretor sorriu. Disse-me: "No sei se compreende, 
um sentimento um pouco infantil". Mas ele e sua me andavam
sempre juntos. No asilo, metiam-se com eles e diziam ao Perez: " a
sua noiva".
  Ele ria. Isto agradava-lhes. E o caso  que a morte da sua me
afetou-o muito. Achei melhor no Lhe recusar a autorizao. Mas, a
conselho do mdico, proibi-lhe a velada de ontem".
  Ficamos calados durante bastante tempo. O diretor levantou-se e
olhou pela janela do escritrio.
  A certa altura observou: "J chegou o padre de Marengo.
Vem adiantado". Preveniu-m e q u e s  o p r e c i s o s p e l o m e n o s
trs quartos de hora para chegar  igreja, que fica mesmo na aldeia.
Descemos.
  Diante do edifcio, estava o padre e dois aclitos.
  Um deles segurava um turbulo de incenso e o padre abaixava-se
para regular o comprimento da cadeia de prata.
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Quando chegamos, o padre levantou-se. Tratou-me por "meu filho"
e disse-me algumas palavras. Entrou e eu segui-o.
  Vi de relance que os parafusos do caixo estavam apertados e que
havia na sala quatro homens vestidos de preto. Ao mesmo tempo, o
diretor disse-me que o carro estava  espera na estrada e ouvi o
padre principiar as suas oraes. A partir confuso de movimentos
por detrs das janelas, e depois tudo se acalmou. O sol estava um
pouco mais alto: principiava a aquecer-me os ps. O porteiro
atravessou o ptio e veio dizer que o diretor estava  minha espera.
Fui ao escritrio deste. Mandou-me assinar vrios documentos.
Reparei que estava vestido de preto, com calas de fantasia. Pegou
no telefone e dirigiu-me a palavra: "Os empregados da agncia
funerria j c esto. Vou-lhes dizer para fecharem o caixo. Quer
ver a sua me pela ltima vez?" Disse que no. Baixando a voz,
deu uma ordem pelo telefone: "Figeac, diga aos homens que
podem ir".
  Disse-me, em seguida, que assistiria ao enterro.
Agradeci-lhe: Sentou-se por detrs da secretria e cruzou as pernas.
Informou-me de que estaramos ss, eu e ele, apenas com a
presena da enfermeira de servio. E m princpio, os pensionistas
no deviam assistir aos enterros. Deixava-os apenas velar: "uma
questo de humanidade", observou. Mas excepcionalmente, dera
autorizao para seguir o prstito a um velho amigo da minha me:
"Toms Perez". Aqui, o diretor sorriu. Disse-m e : " N  o s e i s e
compreende,  um sentimento um pouco infantil. Mas ele e a sua
me andavam sempre juntos. No asilo, metiam-se com eles e diziam
ao Perez: " a sua noiva".
Ele ria. Isto agradava-L h e s . E o c a s o  q u e a m o r t e d a s u a
me afetou-o muito. Achei melhor no lhe recusar a autorizao.
"Mas, a conselho do mdico, proibi-lhe a velada de ontem".
  Ficamos calados durante bastante tempo. O diretor levantou-se e
olhou pela janela do escritrio. A certa altura observou: "J chegou o
padre de Marengo. Vem adiantado".
Preveniu-me que so precisos pelo menos trs quartos de hora para
chegar  igreja, que fica mesmo na aldeia. Descemos.
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Diante do edifcio, estava o padre e dois aclitos. Um deles segurava
um turbulo de incenso e o padre abaixava-se para regular o
comprimento da cadeia de prata. Quando chega mos, o padre
levantou-se. Tratou-me p o r " m e u f i l h o " e d i s s e -me algumas
palavras. Entrou e eu segui-o.
  Vi de relance que os parafusos do caixo estavam apertados e que
havia na sala quatro homens vestidos de preto. Ao mesmo tempo, o
diretor disse-me que o carro estava  espera na estrada e ouvi o
padre principiar as suas oraes.
A partir deste momento, foi tudo muito rpido. Os homens dirigiram-
se para o caixo. O padre, os dois aclitos, o diretor e eu, samos.
Diante da porta, havia uma senhora que eu no conhecia: "o Sr.
Meursault", disse o diretor. No escutei o nome da senhora e
compreendi apenas que era enfermeira delegada. Sem um sorriso,
inclinou uma cara ossuda e comprida. Depois, afastamo-nos para
deixar passar o corpo.
Seguimos os homens e samos do asilo. Diante da porta, estava um
carro comprido e reluzente. Ao p do carro, estavam o mestre de
cerimnias, homenzinho vestido com um traje ridculo, e um velho
com um ar embaraado. Percebi que era o Sr. Perez. Tinha um
chapu mole, de copa arredondada e abas largas (tirou-o da cabea
quando o caixo atravessou a porta), um fato cujas calas caam
sobre os sapatos e uma gravata preta, pequena demais, para a sua
camisa com um grande colarinho branco. Os beios tremiam-lhe, por
debaixo de um nariz semeado de pontos negros. Os cabelos brancos,
bastante finos, deixavam-l h e p a s s a r u m a s c u r i o s a s o r e l h a s
balanantes e mal acabadas, cuja cor de um vermelho sanguneo
nesta cara to plida, me impressionou.
  O mestre de cerimnias indicou-nos os nossos lugares. O padre ia 
frente do carro. Em volta deste, os quatro homens.
Atrs, o diretor e eu; fechando o cortejo, a enfermeira delegada e o
Sr. Perez.
  O cu estava j cheio de sol. Comeava a pesar sobre a terra e o
calor aumentava rapidamente: No sei por que motivo esperamos
tanto tempo antes de principiarmos a andar. Tinha calor, com o meu
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fato escuro. O velhinho que voltara a cobrir a cabea, tirou outra vez
o chapu. Voltara-me um pouco para o lado dele e olhava-o, quando
o diretor o trouxe  conversa.
Disse-me que, muitas vezes, a minha me e o Sr. Perez iam passear
 noite at  aldeia, acompanhados por uma enfermeira.
Eu olhava os campos em meu redor. Atravs das linhas de ciprestes
que levavam s colinas perto do cu, desta terra ruiva e verde,
destas casas raras e bem desenhadas, eu compreendia a minha
me. A noite, neste stio, devia ser como que um melanclico
perodo de trguas.
  Hoje, o sol excessivo que fazia estremecer a paisagem, tornava-a
deprimente e inumana.
   I n i c i a mos o caminho. Reparei ento que o Sr. Perez
coxeava ligeiramente. Pouco a pouco, o carro ia mais depressa e
o velho perdia terreno: Um dos homens que rodeava o carro
tambm se deixou ultrapassar e seguia agora ao meu nvel. Eu
estava admirado pela rapidez com que o sol subia no horizonte.
Dei por que o ar era h muito cruzado pelo canto dos insetos e pelos
estalidos das ervas. O suor caa-me pela cara abaixo.
C o m o n  o t r a z i a c h a p  u , l i m p a v a -m e c o m u m l e n  o . O
empregado da agncia disse-me ento qualquer coisa que no ouvi.
Enquanto, com a mo esquerda, limpava a testa com um leno, com
a mo direita levantava a pala do bon. Disse-lhe: "O qu?" Ele
repetiu, apontando para o cu: "Est forte". Eu disse: "Sim". Pouco
depois, perguntou-me: " a sua me, quem ali vai?" Voltei a dizer:
"Sim". "Era muito velha?" Respondi:
"Assim, assim", porque no sabia ao certo quantos anos tinha.
O h o m e m c a l o u -se. Voltei-m e e v i o v e l h o P e r e z u n s
cinqenta metros atrs de ns. Com o chapu na mo, apressava-se
o mais q u e podia: Olhei tambm para o diretor. Andava com
muita dignidade, s e m g e s t o s i n  t e i s . A l g u m a s g o t a s d e
suor escorriam-lhe pela testa, mas no as enxugava.
  Parecia-me que o cortejo ia um pouco mais depressa. Em volta de
mim, era sempre a mesma paisagem luminosa, inundada de sol.

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O brilho do cu era insustentvel. Em dado momento, passamos por
um troo de estrada que havia sido arranjado h pouco. O sol
derretia o alcatro. Os ps enterravam-se, deixando aberta a carne
luzidia do alcatro. Por cima do carro, o chapu do cocheiro, de
couro escuro, parecia ter sido moldado na mesma lama negra.
Sentia-m e u m p o u c o p e r d i d o e n t r e o c  u a z u l e b r a n c o e a
monotonia destas cores, negro pegajoso do alcatro aberto, negro
bao dos fatos, negro lacado do carro.
Tudo isto, o sol, o cheiro de borracha e de leo do automvel, o do
verniz e o do incenso, o cansao de uma noite de insnia, me
perturbava o olhar e as idias. Voltei-me uma vez mais: o velho
Perez apareceu-me muito ao longe, perdido numa nuvem de calor, e
depois no o tornei a ver. Procurei-o c o m o o l h a r e vi que
abandonara a estrada e metera pelos campos dentro.
Reparei que, na minha frente, a estrada virava para um lado.
Compreendi que o Perez, conhecendo a terra, cortava a direito para
nos apanhar. Na curva, conseguira juntar-se conosco.
 E m s e g u i d a v o l t a m o s a p e r d-l o . T o m o u a i n d a v  r i o s
atalhos atravs dos campos. Quanto a mim, sentia o sangue latejar-
me nas fontes.
  Depois tudo se passou com tanta rapidez, tanta certeza, tanta
naturalidade, que j no me lembro de nada. Uma coisa, apenas: 
entrada da aldeia, a enfermeira delegada falou-me.
Possua uma voz singular, que no acertava com a cara, uma
voz trm u l a e m e l o d i o s a . D i s s e -m e : " S e v a m o s m u i t o
devagar, arriscamo-nos a uma insolao. Mas se vamos muito
depressa, transpiramos e na igreja apanhamos calor e frio". Tinha
razo.
Era um beco sem sada. Conservei ainda algumas imagens
deste dia: por exemplo, a cara do Perez quando, pela ltima vez,
se j u n t o u c on o s c o p r  x i m o d a a l d e i a . G r o s s a s l  g r i m a s
de enervamento e de tristeza corriam-Lhe pela cara abaixo. Mas, por
causa das rugas, no caam. Dividiam-se, juntavam-se e formavam
uma mscara de gua nessa cara arruinada. Houve ainda a igreja e
os aldees nos passeios, os gernios vermelhos nos jazigos do
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cemitrio, o desmaio do Perez (dir-se-ia um boneco partido), a terra
cor de sangue que atiravam para cima do caixo da me, a carne
branca das razes que se lhes juntavam, ainda mais gente, vozes, a
aldeia, a espera diante de um caf, o incessante roncar do motor, e
a minha alegria quando o autocarro entrou no ninho de luzes de
Argel e que pensei que me ia deitar e dormir durante doze horas.
Ao acordar, compreendi por que motivo o meu chefe mostrara um ar
aborrecido quando lhe pedi os dois dias de licena: hoje era sbado.
Tinha-o, por assim dizer, esquecido, mas ao levantar-me, esta idia
viera-me  cabea. O chefe, muito naturalmente, pensou que eu
disporia assim de quatro dias de feriado contando com o domingo, e
isso no Lhe podia dar prazer de espcie nenhuma. Mas por um lado
no  culpa minha, se o enterro foi ontem em vez de ser hoje, e por
outro l a d o , t e r i a t i d o d e q u a l q u e r m a n e i r a o s  b a d o e o
domingo livres. Isto no me impede,  claro, de compreender.
  Custou-me a levantar, pois estava cansado do dia de ontem.
Enquanto fazia a barba, perguntei a mim mesmo o que iria fazer e
decidi ir tomar um banho de mar. Tomei um eltrico e dirigi-me para
o estabelecimento de banhos do porto. Uma vez a, mergulhei para a
gua. Havia muitos rapazes e raparigas.
Encontrei na gua a M a r i a C a r d o n a , u m a a n t i g a d a tilgrafa
do escritrio, que eu desejara em tempos. Ela tambm, julgo eu.
Mas despediu-se pouco depois e no tivemos tempo.
  Ajudei-a a subir para uma bia e, neste movimento, toquei-lhe nos
seios. Estava eu ainda na gua, e j ela se estendia na bia de
barriga para o ar.
  Voltou-se para mim. Tinha os cabelos a carem-lhe para os olhos e
sorria. Subi para o lado dela.
  Estava um dia timo e, como de brincadeira, deixei cair a cabea
para trs, e descansei-a em cima dela. No disse nada e eu deixei-
me ficar assim: Tinha o cu inteiro nos olhos, e o cu estava azul e
dourado. Debaixo da cabea, sentia o corpo de Maria latejar
suavemente. Ficamos muito tempo na bia, meio adormecidos.
Quando o sol se tornou forte de mais, ela mergulhou e eu tambm.

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Agarrei-a, passei-lhe um brao em volta da cintura e nadamos os
dois juntos. Ela ria muito.
 No cais, enquanto nos secvamos, disse-me: "Estou mais queimada
do que voc". Perguntei-Lhe se queria vir comigo  noite ao cinema.
Voltou a rir e disse que tinha vontade de ver um filme com o
Fernandel. Depois de vestidos, ficou admirada de me ver com uma
gravata preta e perguntou-me se eu estava de luto. Disse-lhe que a
minha me tinha morrido. Como queria saber h quanto tempo,
,respondi-lhe: "Morreu ontem". Esboou um movimento de recuo,
mas no fez nenhuma observao. Tive vontade de lhe dizer que a
culpa no fora minha, mas detive-me porque me pareceu j ter dito
isso mesmo ao meu chefe. Isto nada queria dizer. De qualquer
modo, fica-se sempre com um ar um pouco culpado.
    n o i t e , M a r i a e s q u e c e r a -s e d e t u d o . O f i l m e t i n h a
momentos engraados e outros realmente idiotas. Encostava a
minha perna  dela. Acariciava-lh e o s s e i o s . P a r a o f i m d o
espetculo beijei-a, mas mal.  sada, veio a minha casa.
  Quando acordei fora-se j embora. Explicara-me que tinha de ir
visitar uma tia. Pensei que era domingo, o que me aborreceu: no
gosto dos Domingos. Ento voltei-me na cama, procurei na almofada
o cheiro de sal que os cabelos de Maria ali tinham deixado e dormi
at s dez horas: Fumei depois alguns cigarros, sem me levantar,
at ao meio-dia. No queria ir como de costume almoar ao Celeste
porque me fariam com certeza perguntas e eu detesto que me
faam perguntas. Cozi eu prprio uns ovos e comi-os assim mesmo,
sem po porque j no havia nenhum e porque no queria descer
para ir comprar.
  Depois do almoo aborreci-me um pouco, e vagueei pela casa.
Quando a me c estava, era cmoda. Agora  grande demais
para mim e tive que transportar a mesa da sala de jantar para
o quarto.
  Vivo apenas nesta diviso, rodeado pelas cadeiras de palha um
pouco gastas, pelo armrio cujo espelho est amarelecido, pela
cmoda e pela cama encerada. Mais tarde, para fazer alguma coisa,
peguei num velho jornal e pus-me a ler.
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  R e c o r t e i u m a n  n c i o d e s a i s d e Kruschen e colei-o n u m
velho caderno onde guardo as coisas que me divertem nos jornais.
Lavei tambm as mos e, por fim, fui para a varanda.
O meu quarto d para a rua principal do bairro. A tarde estava
bonita. No entanto, o pavimento estava pastoso, as pessoas eram
poucas e, para mais, iam com pressa. Passavam primeiro famlias de
passeio, dois midos de fato  marujo, , com cales at ao joelho,
um pouco embaraados nos seus trajes de ver-a-Deus, uma
rapariguinha com um grande laarote cor-de-rosa e sapatos pretos
envernizados. Atrs deles, uma me enorme, com um vestido de
seda castanho, e o pai, um homenzinho franzino que eu conheo de
vista. Trazia um chapu de palha, um lacinho e uma bengala na
mo. Vendo-o com a mulher, percebi porque  que, no bairro, se
dizia que era uma pessoa distinta. Um pouco mais tarde, passaram
rapazes do bairro, cabelos penteados com fixador, gravata
vermelha, casaco muito cintado, com uma algibeira bordada e
sapatos de ponta quadrada. Pensei que iam a um dos cinemas da
baixa.
  Por isso  que partiam to cedo, rindo tanto e correndo para o
eltrico.
 Depois deles, a rua ficou pouco a pouco deserta.
 Os espetculos, julgo eu, tinham principiado em toda a parte. S se
viam na rua os comerciantes e os gatos.

 O cu estava puro, mas sem brilho, por cima das rvores ao longo
da rua. No passeio da frente, o vendedor de tabaco tirou uma
cadeira, instalou-a diante da porta e ps-se a cavalo nela, com os
dois braos nas costas. Os eltricos, h pouco cheios, iam quase
vazios. No pequeno caf "Pierrot" ao lado da tabacaria, o criado
varria a serradura na sala deserta. Era realmente domingo. Peguei
na minha cadeira e coloquei-a como a do vendedor de tabaco porque
me pareceu muito mais cmodo.
Fumei dois cigarros, entrei para ir buscar um bocado de chocolate e
voltei para o comer  janela. Pouco depois o cu escureceu e julguei
que amos ter uma chuvada de Vero. Pouco a pouco, no entanto, o
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cu foi-se descobrindo. Mas a passagem das nuvens deixara na rua
como que uma promessa de chuva que a tornara mais sombria.
Fiquei ali muito tempo, a olhar para o cu.
  s cinco horas, os eltricos chegaram ruidosamente. Traziam do
estdio cachos de espectadores pendurados nos degraus e
nas pegas das portas.
  Os eltricos seguintes transportavam os jogadores, que reconheci
pelas malinhas que traziam na mo. Gritavam e cantavam aos
berros que o seu clube era o melhor. Muitos deles fizeram-me sinais.
Um deles, gritou-me mesmo: "Demos cabo deles!" E, sacudindo a
c a b e  a , e u d i s s e : " S i m , s i m " . A p a r t i r deste momento, os
automveis comearam a afluir. O dia mudou ainda um pouco. Por
cima dos tetos, o cu tornou-se avermelhado e, com o nascer da
noite, as ruas ganharam animao. Os mesmos transeuntes foram
voltando pouco a pouco.
Reconheci o senhor distinto no meio dos outros. As
crianas choravam ou deixavam-se arrastar: Quase imediatamente,
os c i n e m a s d o b a i r r o d e s p e j a r a m p a r a a r u a u m a o n d a
de espectadores. Entre eles, os rapazes de h pouco tinham
gestos mais decididos do que o costume e eu calculei que haviam
visto um filme de aventuras. Os que regressavam dos cinemas
da cidade chegaram um pouco mais tarde. Pareciam mais srios.
Ainda riam, mas de tempos a tempos. Tinham um ar cansado
e pensativo. Deixaram-s e ficar na rua, dando de um lado para
o outro no passeio do lado de l. As raparigas do bairro, de cabelos
soltos, passeavam de brao dado. Os rapazes passavam por elas e
dirigiam-lhes gracejos, elas riam-se e voltavam a cabea para o
lado. Algumas, minhas conhecidas, acenaram-me com a mo.
  Os candeeiros da rua acenderam-se bruscamente e empalideceram
as primeiras estrelas que subiam na noite. Senti os olhos fatigados,
de tanto olhar os passeios, com o seu carregamento de homens e de
luzes. As lmpadas tornaram os pavimentos luzidios, e os eltricos,
a intervalos regulares, lanaram os seus reflexos sobre uns cabelos
brilhantes, um sorriso ou uma pulseira de prata. Pouco depois, os
eltricos fizeram-se mais raros, a noite escureceu por sobre as
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rvores e os candeeiros, e o bairro esvaziou-se insensivelmente, at
 altura em que o primeiro gato atravessou lentamente a rua outra
vez deserta. Pensei ento que era preciso jantar.
Doa-me um bocadinho o pescoo por ter ficado tanto tempo apoiado
sobre as costas da cadeira. Fui  rua comprar po e pastis, cozinhei
eu mesmo o que tinha em casa e comi em p.
Quis fumar outro cigarro  janela, mas o ar tinha refrescado e eu
estava com um pouco de frio. Fechei os vidros e,  volta, vi no
espelho um bocado da mesa onde a lmpada de lcool estava junto
a uns pedaos de po.
 Pensei que passara mais um domingo, que a me j fora a enterrar,
q u e i a r e g r e s s a r a o m e u t r a b a l h o e q u e , n o f i m d e contas,
continuava tudo na mesma.
 Hoje trabalhei muito, no escritrio. O chefe foi amvel.
Perguntou-me se eu no estava cansado e quis saber a idade
da me. Para no me enganar, respondi "Uns sessenta e tal", e, no
sei porqu, ficou com um ar aliviado, um ar de "assunto arrumado".
Havia imensas cartas a responder, amontoadas sobre a m i nha
secretria e tive que lhes dar seguimento. Antes de deixar o
escritrio para ir almoar, lavei as mos. Ao meio-dia, gosto sempre
de o fazer,  tarde, no tanto, porque a toalha rolante j est muito
mida: serviu durante todo o dia.
 Uma vez fiz esta mesma observao ao chefe. Respondeu-me
que e r a a b o r r e c i d o , m a s q u e s e t r a t a v a d e u m p o r m e n o r
sem importncia. Sa um pouco mais tarde, ao meio-dia e meia
hora, com o Manuel, que trabalha na expedio. O escritrio d
para o mar e perdemos alguns instantes a olhar para os barcos
de c a r g a , n o p o r t o a r d e n t e d e s o l . N e s t e m o m e n t o p a s s o u
um caminho, fazendo um enorme barulho de correntes e de
exploses.
O Manuel perguntou-me "se aproveitvamos" e eu comecei a correr.
O caminho ultrapassou-nos e lanamo-n o s a toda a velocidade
atrs dele. Sentia-me inundado de poeira e de rudo. No via nada e
sentia apenas este impulso desordenado da corrida, no meio de
guindastes e de mquinas, de mastros que danavam no horizonte e
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de cascos de navios. Fui o primeiro a agarrar-me e atirei-me num
salto. Depois, ajudei o Manuel a sentar-se. Estvamos sem flego, o
caminho ia aos saltos no pavimento irregular do cais, por entre a
poeira e o sol. O Manuel ria-se a bandeiras despregadas.
  Chegamos todos suados ao restaurante do Celeste, que l estava
como sempre, com a sua barriga gorda, o seu avental e os seus
bigodes brancos. Perguntou-me "se eu me sentia bem".
 Disse-lhe que sim e que estava com fome. Comi muito depressa
e tomei um caf. Depois voltei para casa, dormi um bocado
porque bebera vinho demais e, ao acordar, tive vontade de fumar.
Fazia-se tarde e corri para apanhar um eltrico. Trabalhei toda a
tarde. Fazia muito calor no escritrio e  tarde,  sada, gostei de
passear lentamente ao longo do cais. O cu estava verde e eu
sentia-me contente. Mas apesar disso fui diretamente para casa,
pois queria cozer umas batatas.
  Ao subir, na escada escura, choquei com o velho Salamano, meu
vizinho de andar. Ia com o co. H oito anos que no se largam. O
rafeiro tem uma doena de pele que lhe fez cair todo o plo e que o
cobre de manchas e de crostas.  fora de viver com ele, os dois
sozinhos num pequeno quarto, o velho Salamano acabou por ficar
parecido com o co. Quanto ao co, tomou do dono uma espcie de
ar curvado, focinho para a frente e pescoo estendido. Parecem da
mesma raa, e no entanto detestam-se. Duas vezes por dia, s onze
e s seis horas, o velho leva o co a passear. Fazem h oito anos o
mesmo itinerrio.
 Seguem ao longo da Rua de Lyon, o co a puxar pelo homem at
o fazer tropear. Pe-se ento a bater no bicho e a insult-lo.
O co roja-se cheio de medo e deixa-se arrastar. Nesse momento 
o velho quem tem que puxar. Quando o co se esquece, pe-
se o u t r a v e z a p u x a r e  o u t r a vez espancado e insultado.
Ficam ento os dois no passeio e olham-se, o co com terror, o
homem com dio.  assim todos os dias. Quando o co quer fazer
as suas necessidades, o velho no lhe d tempo e arrasta-o: Se por
acaso o co "faz" no quarto, tambm lhe bate. Isto dura h oito
anos. O Celeste diz que " uma pena", mas no fundo ningum pode
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saber. Quando encontrei o Salamano nas escadas, ia a insultar o
co: "Bandido! Co nojento!" Eu disse: "Boas noites", mas o velho
continuava a insult-lo: Perguntei-lhe o que  que o co tinha feito.
No me respondeu. Dizia apenas:
"Bandido! Co nojento!". Percebi que, debruado sobre o animal,
estava a arranjar qualquer coisa na coleira. Falei mais alto. Ento,
sem se voltar para trs, respondeu-me com uma espcie de raiva
reprimida: "Est sempre aqui!". Depois foi-se embora puxando pelo
co, que chorava e se deixava arrastar.
  Neste instante preciso, entrou o meu segundo vizinho de andar. No
bairro, corre o boato que vive  custa das mulheres.
Mas quando lhe perguntam qual  o emprego que tem, responde que
 "lojista". Em geral, no gostam dele. Mas fala muitas vezes comigo
e s vezes entra em minha casa, porque sou dos poucos que o
escutam. Acho que diz coisas com muito interesse.
Alis, no tenho nenhum motivo para no lhe falar. Chama-
se Raimundo Sints.  baixo, com uns ombros largos e um nariz
de pugilista. Anda sempre vestido muito corretamente. Tambm
ele diz, ao falar do Salamano: "uma pena!" Perguntou-me se
aquilo no me incomodava e eu respondi-lhe que no.
  Subimos e eu ia deix-lo, quando me disse: "Tenho l em
casa vinho e chourio. No quer vir petisc-lo comigo?" Pensei
que isso me evitaria ter que fazer o jantar e aceitei. A casa
dele compe-se apenas de um quarto e de uma cozinha sem janela.
Por cima da cama, vem-se um anjo de estuque, branco e cor-de-
rosa, retratos de campees e duas ou trs fotografias de mulheres
nuas. O quarto estava sujo. E a cama por fazer.
Primeiro, acendeu a lmpada de petrleo, depois colocou na
mo direita uma ligadura pouco limpa.
 Perguntei-Lhe o que  que tinha na mo. Respondeu-me que jogara
 pancada na rua com um tipo que se metera com ele.
  - "No sei se sabe, senhor Meursault, disse, no  que eu seja
mau, o que sou  nervoso. O outro disse-me: "Se s homem, desce
do eltrico". Respondi-lhe: "V, sossega, tem calma".

                                 21
Disse-me que eu no era um homem. Ento desci e disse-Lhe:
" melhor que te cales, ou parto-te a cara". Respondeu-me:
"Sempre queria ver". Ento dei-lhe um soco. Caiu. Quando eu o ia a
ajudar a levantar, comeou do cho a dar-me pontaps.
Ento dei-lhe uma joelhada e dois "bicanos". Tinha a cara cheia de
sangue. Perguntei-Lhe se queria mais. Disse que no.
  Entretanto, Sints ia enrolando a ligadura. Eu estava sentado na
cama. Disse-me: Como v, no fui eu que comecei.
Ele  que quis. Reconheci que era verdade. Declarou-me ento que,
justamente, queria pedir-me um conselho a propsito deste assunto,
que eu sim, era um homem, que conhecia a vida, que podia ajud-lo
e q u e , e m s e g u i d a , f i c a r i a m e u a m igo. No respondi e ele
perguntou-me se eu queria ser amigo dele. - Repliquei que tanto me
fazia: ele ficou com um ar contente.
Tirou o chourio de um armrio, assou-o no fogo, e ps em cima da
mesa copos, pratos, talheres e duas garrafas de vinho.
Tudo isto sem dizer uma palavra. Depois instalamo-nos.
Enquanto comia, comeou a contar-me a histria toda. Ao princpio,
hesitava um bocadinho. "Conheci uma senhora... Essa senhora... era
minha... amante, por assim dizer..." O homem com quem lutara era
irmo dessa mulher. Disse-me que a tivera por sua conta. No
respondi nada, mas ele sentiu-se na necessidade de acrescentar
imediatamente que sabia muito bem os boatos que corriam no
bairro, mas que s respondia perante a sua conscincia, e que tinha
a profisso de lojista.
  "Voltando ao assunto, disse ele, a certa altura percebi que qualquer
coisa no jogava certo". Dava-lhe dinheiro suficiente para viver.
Pagava-lhe mesmo o quarto e ainda vinte francos por dia para
alimentao. "Trezentos francos para o quarto, seiscentos francos
para a comida, um par de meias de vez em quando, eram bem uns
mil francos por ms." E Sua Excelncia no trabalhava!
 Mas dizia-m e q u e e r a p o u c o , q u e o q u e e u l h e d a v a n  o
era suficiente. E, n o e n t a n t o , e u d i z i a -l h e : " P o r q u e  q u e
no arr a n j a s u m t r a b a l h o , n e m q u e s e j a p o r m e i o d i a ? J 
me aliviavas um bocado. Este ms comprei-te um vestido, dou-
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te vinte francos por dia, pago-te a renda e tu, passas as tardes a
tomar caf com as amigas. Ds-lhes o caf e o acar.
"Portei-me bem contigo e tu no me pagas na mesma moeda".
Mas ela no trabalhava, dizia que no era capaz e foi assim
que percebi que me andava a enganar."
  Contou-me que lhe encontrara dentro da carteira um bilhete de
lotaria e que ela no soubera explicar como arranjara dinheiro para
o comprar. Mais tarde, encontrara-lhe uma senha de casa de
penhores, provando que empenhara duas pulseiras.
At a, ignorara a existncia dessas pulseiras. "Percebi perfeitamente
que aqui andava gato. Ento abandonei-a. Mas primeiro cheguei-lhe.
E disse-lhe meia dzia de verdades.
Disse-Lhe que o que ela queria, era divertir-se. E disse-Lhe tambm,
Sr. Meursault:
  "No vs que todos tm inveja da felicidade que te dou? Ainda
acabars por ter saudades da felicidade que tinhas..."
  Espancara-a at a deixar cheia de sangue. Antes disso, no lhe
batia. "Ou por outra batia-lhe, mas ternamente, por assim dizer.
Chorava um bocadinho. Eu fechava as persianas e o caso terminava
como sempre. Mas agora, foi a srio. E quanto a mim, ainda no a
castiguei bastante.
  Explicou-me nesta altura que era por isto que precisava de um
conselho. Calou-s e p a r a r e g u l a r a t o r c i d a d o c a n d e e i r o . E u
continuava a ouvi-lo. Bebera quase um litro de vinho e sentia muito
calor nas fontes. Como os meus se haviam acabado, fumava os
ci g a r r o s d o R a i m u n d o . P a s s a v a m n a r u a o s  l t i m o s
eltricos, levando com eles os rudos agora longnquos do bairro.
Raimundo continuou a falar. O que o aborrecia, "era ainda sentir
necessidade fsica dela". Mas queria castig-la.
Primeiro pensara lev-l a p a r a u m h o t e l e c h a m a r a p o l  c i a
de costumes para provocar um escndalo e ser-lhe passada
uma carta de profissional. Depois, dirigira-s e a u n s a m i g o s
que pertenciam a um meio duvidoso. Estes no tinham tido
nenhuma idia. E, como me sublinhava Raimundo, valia realmente a
pena sere m d e s s e m e i o , p a r a n e m i d  ias terem! Dissera-lhes
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isso mesmo e eles tinham-lhe ento proposto "marc-la". Mas no
era ainda o q u e e l e q u e r i a . P r e c i s a v a p e n s a r m u i t o . M a s
antes, queria perguntar-me uma coisa.
 De resto, antes de mo per guntar, queria saber o que eu
pensava desta histria toda. Respondi que no pensava nada, mas
que era muito interessante. Perguntou-me se eu achava que ela
o tinha enganado. A mim, parecia-me bem que sim. Se achava
que ele a devia castigar e o que faria eu, se estivesse no seu lugar.
Disse-lhe que nunca se podia saber, mas compreendia que ele a
quisesse castigar. Bebi ainda um pouco de vinho. Ele acendeu um
cigarro e contou-me a idia que tinha em mente.
Queria escrever-l h e u m a c a r t a " d a n d o u m a n o c r a v o e o utra
na ferradura". Depois, quando ela voltasse, teria relaes com ela,
como habitualmente e, "mesmo no fim", cuspir-lhe-ia na cara, e p-
la-ia na rua. Achei que, efetivamente, seria um bom castigo. Em
seguida disse-me que no se sentia capaz de escrever a carta e que
pensara em mim para a redigir. Como eu no dizia nada, perguntou-
me se me importava de o fazer agora mesmo e eu respondi que no.
  Depois de beber um copo de vinho, Raimundo levantou-se.
Afastou os pratos e os restos de chourio frio que tnhamos deixado.
Limpou cuidadosamente a toalha encerada da mesa.
Tirou de uma gaveta da mesa de cabeceira uma folha de
papel q u a d r i c u l a d o , u m s o b r e s c r i t o a m a r e l o , u m a p e q u e n a
caneta vermelha e um tinteiro quadrado de tinta roxa. Quando me
disse o nome da mulher, percebi que era Moura. Escrevi a carta.
Escrevi-a um pouco ao acaso, mas apliquei-me o mais possvel para
contentar Raimundo, pois no tinha razo nenhuma para no o
contentar. Depois li a carta em voz alta.
  Escutou-me a fumar, acenando com a cabea, e em seguida pediu-
me para a reler. Disse: "J calculava que tu conhecias bem a vida".
No percebi a princpio que me estava a tratar por tu. S dei por
isso, quando me declarou: "Agora, ficas meu amigo". Repetiu a frase
e eu respondi: "Est bem".
  Era-me indiferente ser ou no amigo dele e, como isso parecia dar-
lhe gosto... Fechou o sobrescrito e acabamos o vinho que ainda
                                             24
havia. Depois ficamos uns momentos a fumar, sem dizer uma
palavra. L fora tudo estava calmo e ouvimos o rudo de um
automvel que passava. Eu disse: " tarde".
   Raimundo era da mesma opinio. Observou que o tempo
passava depressa e, em certo sentido, era verdade. Estava com
sono, mas custava-me levantar-m e . D e v i a e s t a r c o m u m a r
cansado, porque o Raimundo me disse que devia ter mo em mim.
 Ao princpio, no compreendi. Explicou-me ento que soubera
da morte da minha me, mas que era uma coisa que, mais dia
menos dia, tinha que acontecer. Era essa, tambm, a minha opinio.
  Levantei-me e Raimundo deu-me um forte aperto de mo, dizendo
que entre homens, compreendamo-nos sempre. Ao sair de casa
dele fechei a porta e fiquei uns instantes s escuras, no patamar. A
casa estava calma e das profundezas da gaiola das escadas, subia
um sopro mido e obscuro. Ouvia apenas o sangue latejando-me
nos ouvidos e deixei-me ali ficar, imvel.
Mas no quarto do velho Salamano, o co gemeu surdamente.
No c o r a   o d e s t a c a s a c h e i a d e s o n o s , o q u e i x u m e
subiu lentamente, como uma flor nascida do silncio.
Trabalhei muito, durante toda a semana.
  Raimundo veio visitar-me, dizendo que mandara a carta. Fui duas
vezes ao cinema com o Manuel, que nem sempre compreende l
muito bem o que se passa na tela. Preciso de lhe ir explicando o
filme. Ontem foi sbado e, como ficara combinado, a Maria veio a
minha casa. Desejei-a intensamente, porque trazia um vestido s
riscas brancas e encarnadas e sandlias de couro. Adivinhavam-se-
lhe os seios duros e o queimado do sol dava-lhe uma cara de flor.
 Tomam o s u m a u t o c a r r o e f o m o s p a r a u m a p r a i a c e r c a d a
de rochedo s e c o m c a n t e i r o s d e r o s a s d o l a d o d a t e r r a , a
alguns quilmetros de Argel. O sol s quatro horas no estava
quente demais, mas a gua estava morna, com pequenas ondas
longas e preguiosas. Maria ensinou-me um jogo. Era preciso,
nadando, beber  cresta das ondas, acumular toda a espuma na
boca e, pondo-nos em seguida de costas, projet-la para o cu.
Isto fazia uma espcie de renda espumosa que desaparecia no ar
                                        25
ou, como uma chuva quente, nos caa na cara. Mas ao fim de
algum tempo, tinha a boca a arder devido ao sal. Maria veio
ento ter comigo e colou-se a mim, na gua. Beija mo-nos. A
lngua dela refrescava-m e o s b e i  o s e r o l a mos durante alguns
momentos nas vagas.
   Q u a n d o n o s v e s t i m o s n a p r a i a , M a r i a o l h a v a -m e c o m
olhos brilhantes. Voltei a beij-la. A partir da, no falamos mais.
Apertei-a c o n t r a m i m e s  q u e r  a m o s a p a n h a r d e p r e s s a
um autocarro, ir para minha casa e deitarmo-nos na minha cama.
Deixei a janela aberta, e era bom, sentir aquela noite de vero
escorregar ao longo dos nossos corpos morenos.
  Esta manh, Maria ficou comigo e combinamos almoar juntos.
Desci  rua para ir comprar carne. Ao voltar, ouvi uma voz
de m u l h e r n o q u a r t o d e R a i m u n d o . P o u c o d e p o i s , o v e l h o
Salamano ralhou com o co, ouvimos um barulho de botas e de
patas nos degraus de madeira da escada e depois: "Bandido, co
nojento", saram para a rua. Contei-lhe a histria do velho e ela riu-
se. Vestira um dos meus pijamas e estava de mangas arregaadas.
Quando se riu, voltei a sentir desejo por ela.
Instantes depois, perguntou-m e s e eu a amava. Respondi -Lhe
que no queria dizer nada, mas que me parecia que no: Ficou
com um ar triste. Mas, ao preparar o almoo, e sem que viesse
a propsito, voltou a rir-se de tal forma, que a beijei outra vez. Foi
neste momento que rebentou a discusso em casa do Raimundo.
  Ouviu-se primeiro uma voz estridente de mulher e depois a
de Raimundo, dizendo: "Enganaste-me, enganaste-me. Agora  que
eu te vou ensinar..."
  Uns rudos surdos e a mulher ps-se a berrar, mas de uma maneira
to horrvel, que o trio se encheu de gente. A mulher continuava a
gritar e Raimundo continuava a bater-lhe. Maria disse-me que era
terrvel e eu no respondi.
 Pediu-me para ir chamar um polcia, mas eu respondi-lhe que no
gostava dos polcias. Mas o meu vizinho do segundo andar, que 
canalizador, encarregou-se de ir buscar um. Este bateu  porta de
Raimundo e no se ouviu mais nada. Bateu com mais fora e, ao fim
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de alguns instantes, a mulher chorou e Raimundo abriu. Tinha um
cigarro na boca e um ar melfluo. A mulher precipitou-se para a
porta e declarou ao polcia que Raimundo lhe tinha batido. "O teu
nome", disse o polcia.
Raimundo respondeu-lhe. "Tira o cigarro da boca enquanto me ests
a falar", disse o polcia. Raimundo hesitou, olhou para mim e ficou
com o cigarro na boca. Neste momento, o polcia deu-lhe uma
bofetada com toda a fora, em plena cara. O cigarro foi cair alguns
metros mais adiante. Raimundo mudou de expresso, mas no disse
nada, at que perguntou com uma voz humilde se podia ir apanhar o
cigarro. O agente declarou que sim e acrescentou: "Mas ficas a
s a b e r q u e u m p o l  c i a , n  o  nenhum fantoche". Entretanto a
rapariga chorava, repetindo:
"Ele bateu-me,  um malandro". "Sr. Guarda, perguntou, Raimundo
ento,  da lei, chamar malandro a um homem?"
  Mas o polcia mandou-Lhe que "calasse o bico".
  Raimundo voltou-s e p a r a a m u l h e r e d i s s e : " N  o p e r d e s
pela demora, pequena, est descansada." O polcia disse-lhe que
se calasse, que a mulher tinha que se ir embora e que ele ficasse no
quarto at receber convocao do comissariado. Acrescentou que
Raimundo devia ter vergonha de estar bbedo ao ponto de todo ele
tremer. Raimundo explicou: "No estou bbedo, Sr. guarda. Mas
diante de si, no posso deixar de tremer". Fechou a porta e todos se
foram embora. Maria e eu acabamos de preparar o nosso almoo.
Como ela no estava com fome, comi quase tudo. Saiu  uma hora e
ainda dormi um bocado.
  Pelas trs horas bateram  porta e Raimundo entrou.
Deixei-me ficar deitado. Sentou-s e n a b o r d a d a c a m a . F i c o u
uns instantes sem falar e eu perguntei-lhe como  que o caso
se tinha passado. Contou-me que fizera o que fora planeado,
mas que ela Lhe dera uma bofetada e que ento comeara a bater-
lhe. Quanto ao resto, eu tinha-o visto com os meus prprios olhos.
Disse-Lhe que me parecia que, agora que ela estava castigada, j
podia estar contente.

                                     27
 Era tambm a opinio dele, e observou ainda que, por mais que a
polcia fizesse, j ningum Lhe tirava a pancada que recebera.
Acrescentou que conhecia os polcias e sabia perfeitamente como se
deve lidar com eles. Perguntou-me ento se eu julgara que ele ia
responder  bofetada do polcia.
Respondi-lhe que no julgara absolutamente nada e que, alis, no
gostava dos polcias. Raimundo pareceu f i c a r m u i t o contente.
Perguntou-me se queria sair com ele. Levantei-me e comecei-me a
pentear. Disse que era preciso que eu servisse de testemunha. A
mim, tanto se me dava, mas no sabia o que havia de dizer. Na
opinio de Raimundo, bastava declarar que a mulher o enganara.
Aceitei ser testemunha.
  Samos e Raimundo ofereceu-m e u m c o p o d e a g u a r d e n t e .
Depois quis jogar uma partida de bilhar e ganhou-me por pouco.
A seguir, queria ir a um bordel, mas eu disse que no, porque no
tinha vontade. Ento voltamos lentamente para casa e ele voltou a
dizer at que ponto se sentia contente por ter conseguido castigar a
amante. Achei-o muito simptico comigo e pensei que era um
momento bem agradvel.
  Distingui ao longe, na soleira da porta, o velho Salamano com um
ar agitado. Quando nos aproximamos, reparei que no estava com o
co. Olhava para todos os lados, dava voltas sobre si mesmo,
t e n t a v a p e n e t r a r c o m o s o l h o s n a e s c u r i d  o d o corredor,
resmungava palavras sem nexo e recomeava a observar a rua com
os seus pequenos olhos avermelhados. Quando Raimundo lhe
perguntou o que se passava, no respondeu logo a seguir.
Ouvi-o vagamente murmurar: "Bandido, co nojento", e continuou a
agitar-se. Perguntei-l h e o n d e e s t a v a o c  o . R e s p o n d e u -
me bruscamente que se fora embora. E depois, de repente, ps-se
a falar muito: "Levei-o como de costume ao Campo das Manobras".
Em volta das barracas da feira, havia muita gente. Parei um bocado
para olhar o Rei da Evaso. E quando me quis ir embora, no o vi.
H muito tempo que lhe queria comprar uma coleira menor. "Mas
nunca pensei que esse co nojento fugisse desta maneira".

                                         28
  Raimundo explicou-lhe ento que o co possivelmente se perdera e
que havia de voltar. Citou-lhe vrios exemplos de ces que tinham
percorrido dezenas de quilmetros para encontrar os donos. Apesar
disso, o velho estava cada vez mais agitado.
   "Vo apanh-lo, com certeza. Ainda, se algum o recolhesse...
Mas no! Com aquelas feridas, enoja toda a gente. A carroa leva-o,
tenho a certeza". Eu disse-lhe ento que se dirigisse  Cmara e que
lho devolviam, caso pagasse o imposto. Perguntou-me se este
imposto era muito caro: Eu no sabia. Neste momento, encolerizou-
se: "Dar dinheiro por aquele co nojento?! Ele que rebente para a!"
E ps-se a insult-lo.
Raimundo riu e entrou em casa. Segui-o, e despedimo-nos  porta
dos nossos quartos. Pouco depois ouvi os passos do velho e bateram
 porta. Fui abrir e ele ficou uns instantes a olhar para mim. Disse:
  - "Desculpe, desculpe". Convidei-o a entrar, mas ele no quis.
Olhava para as pontas dos ps e tremiam-lhe as mos.
Olhando para o lado, perguntou: "No o vo apanhar, pois no, Sr.
Meursault? Vo-mo dar outra vez, no vo? O que vai ser de mim?!
O que vai ser de mim?!" Disse-lhe que os ces ficavam durante trs
dias na cmara  disposio dos donos e que, depois disso, lhes
davam o destino que melhor lhes parecia.
Olhou para mim sem dizer uma palavra. Depois, disse:
"Boas noites". Fechou a porta e ouvi-o andar de um lado para
o outro. A cama dele rangeu. E, pelo estranho barulho que
me chegava atravs da parede, compreendi que estava a chorar.
No s e i p o r q u  , p e n s e i n a m i n h a m  e . M a s n o d i a
seguinte, precisava de me levantar cedo. No tinha fome e deitei-me
sem jantar.
 Raimundo telefonou-me para o escritrio. Disse-me que um amigo
dele, a quem falara de mim, me convidava para passar o domingo
numa casa que tinha perto de Argel. Respondi que gostaria de ir,
mas que j combinara passar o domingo com uma amiga. Raimundo
declarou imediatamente que tambm a convidava.
A mulher do amigo ficaria, at, muito contente por no ser a nica
no meio de um grupo de homens.
                                   29
  Quis desligar imediatamente, pois sei que o chefe no gosta que
estejamos ao telefone. Mas Raimundo pediu-me para esperar e disse
que me poderia ter transmitido o convite  noite, mas me queria
avisar de outra coisa. Fora seguido durante todo o dia por um grupo
de rabes entre os quais estava o irmo da sua antiga amante. "Se
os vires esta noite perto da nossa casa, avisa-me". Respondi que
estava combinado.
  P o u c o d e p o i s o c h e f e m a n d o u -m e c h a m a r e f i q u e i
aborrecido porque pensei que me ia dizer para telefonar menos e
trabalhar mais. No era nada disso. Declarou que me ia falar
num projeto ainda muito vago. Queria apenas saber a minha
opinio sobre o assunto. Tencionava instalar um escritrio em
Paris, para t r a t a r d i r e t a m e n t e c o m a s g r a n d e s c o m p a n h i a s
e perguntou-me se eu estava disposto a ir. Poderia assim viver em
Paris e viajar durante parte do ano. "Voc ainda  novo e creio que
essa vida lhe agradaria". Disse que sim, mas que no fundo me era
indiferente. Perguntou-m e d e p o i s s e e u n  o gostava de uma
mudana de vida. Respondi que nunca se muda de vida, que em
todos os casos, todas as vidas se equivaliam e que a minha, aqui,
no me desagradava. Mostrou um ar descontente, disse que eu
respondia sempre  margem das questes, e que no tinha ambio,
o que para os negcios era desastroso. Voltei para o meu trabalho.
Teria preferido no o descontentar, mas no via razo nenhuma
para modificar a minha vida. Pensando bem, no era infeliz. Quando
era estudante, alimentara muitas ambies desse gnero. Mas
quando abandonei os estudos, compreendi muito depressa que essas
coisas no tinham verdadeira importncia.
  Maria veio buscar-me  noite e perguntou-me se eu queria casar
com ela. Respondi que tanto me fazia, mas que se ela de fato queria
casar, estava bem. Quis ento saber se eu gostava dela. Respondi,
como alis respondera j uma vez, que isso nada queria dizer, mas
que julgava no a amar. "Nesse caso, porqu casar comigo?", disse
ela. Respondi que isso no tinha importncia e que, se ela quisesse,
nos podamos casar. Era ela, alis, quem o perguntava, e eu
contentava-me em dizer que sim. Maria observou ento que o
                                           30
casamento era uma coisa muito sria. Respondi: "No". Maria calou-
se durante uns instantes e olhou-me em silncio. Depois, falou.
Queria simplesmente saber se, vinda de outra mulher com a qual
estivesse relacionado do mesmo modo, eu teria aceito uma proposta
semelhante.
 Respondi: "Possivelmente". Perguntou ento de si para si
se gostaria de mim, mas, sobre esse ponto, como poderia eu
saber a l g u m a c o i s a ? D e p o i s d e m a i s u n s i n s t a n t e s d e
silncio, murmurou que eu era uma pessoa estranha, que gostava
de mim se calhar por isso mesmo, mas que um dia, pelos mesmos
motivos, era capaz de passar aos sentimentos contrrios. Como eu
me calasse, por no ter nada a acrescentar, tomou-me o brao
a sorrir e declarou que queria casar comigo. Respondi que sim, logo
que ela quisesse. Falei-lhe ento na proposta do chefe e Maria disse-
me que gostaria de conhecer Paris. Contei-lhe que l vivera durante
algum tempo e ela perguntou-me como era a cidade. Respondi:
"suja. H pombas e ptios escuros. As pessoas tm a pele muito
branca".
  Depois passeamos, escolhendo as grandes ruas. As mulheres eram
bonitas e perguntei a Maria se ela achava o mesmo. Disse que sim,
e que me compreendia. Depois calamo-nos. Queria, no entanto, que
ela ficasse comigo e disse-lhe que poderamos jantar juntos no
Celeste. Maria replicou que gostaria muito, mas tinha que fazer.
Estvamos ao p da minha casa e eu disse-lhe adeus. Ela olhou para
mim: "No queres saber o que  que tenho que fazer?" Eu queria,
mas no me lembrara de lho perguntar e era por isso que estava
com um ar de censura.
Diante do meu ar embaraado, voltou ento a rir e, para
me estender a boca, teve para mim um movimento de todo o corpo.
  Jantei no restaurante do Celeste. Comeara j a comer, quando
entrou uma mulherzinha esquisita e veio perguntar se podia sentar-
se  minha mesa. Porque no havia de poder? Fazia gestos bruscos
e tinha uns olhos brilhantes, inseridos numa pequena cara de ma.
Tirou o casaco, sentou-se e consultou febrilmente a lista. Chamou o
Celeste e pediu imediatamente os pratos que queria, com uma voz
                                       31
ao mesmo tempo precisa e precipitada. Enquanto esperava os
acepipes, abriu a carteira, tirou um pequeno quadrado de papel e
um lpis, fez a conta ao que tinha que pagar, e depois tirou do
porta-moedas, acrescentando-l h e a g o r j e t a , a q u a n t i a e x a ta.
Colocou-a diante dela. Nesse momento levaram-lhe os acepipes,
que engoliu a toda a velocidade. Enquanto esperava o prato seguinte
tirou ainda da carteira um lpis azul e uma revista que dava os
programas radiofnicos da semana.
   Com o maior cuidado, sublinhou um a um quase todos
os p r o g r a m a s . C o m o a r e v i s t a t i n h a u m a s d o z e p  ginas,
continuou este trabalho metodicamente durante toda a refeio. J
eu acabara de comer, e ainda ela estava a sublinhar, sempre com
a mesma aplicao. Depois levantou-se, vestiu o casaco com
os mesmos gestos precisos de autmato e saiu. Como no tinha
nada que fazer, tambm sa e segui-a durante uns momentos.
Colocou-se  beira do passeio e, com uma segurana e uma rapidez
incrveis, seguia o seu caminho sem se desviar e sem olhar para os
lados. Acabei por perd-la de vista e por voltar para trs. Achei que
era uma mulher estranha, mas depressa a esqueci.
   porta de casa, encontrei o velho Salamano. Disse-lhe para entrar
e ele informou-me que o co se perdera, pois no estava na
C  m a r a . O s e m p r e g a d o s h a v i a m -l h e d i t o q u e f o r a ,
talvez, atropelado. Pergun t a r a s e n  o e r a p o s s  v e l s a b  -lo
nos comissariados da polcia. Tinham-Lhe respondido que eles
no tomavam nota de coisas como essas, pois aconteciam todos
os dias. Disse ao velho Salamano que podia arranjar outro co, mas
ele respondeu-me com toda a razo alis, que estava habituado
quele.
  Eu estava estendido na cama e Salamano sentara-se numa cadeira
em frente da mesa. Estava voltado para mim e tinha as mos em
cima dos joelhos. Conservara o velho chapu na cabea:
Sob o bigode amarelecido, mastigava frases que depois
no acabava. Massava-me um bocado, mas como no tinha nada
que f a z e r e n  o e s t a v a c o m s o n o , n  o m e i m p o r t e i . P a r a

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dizer alguma coisa, fiz-Lhe perguntas sobre o co. Disse-me que
o arranjara depois da morte da mulher. Casara-se bastante tarde.
Na sua mocidade, tivera vontade de entrar para o teatro: na tropa,
representara em vrias rcitas militares. Mas acabara por entrar
para os caminhos de ferro e no estava arrependido, pois agora
davam-Lhe uma pequena reforma. No fora feliz com a mulher,
mas, por fim, habituara-se a ela. Quando esta morrera, sentira-se
muito s: Pedira ento a um colega do escritrio para lhe dar um
co, e fora-Lhe oferecido este, quase recm-nascido. Tivera que o
alimentar a bibero. Mas como o co vive menos do que o homem,
tinham acabado por envelhecer juntos.
   "Tinha mau feitio, Disse Salamano. De tempos a
tempos zangvamo-nos. Mas apesar disso, era um bom co". Disse
que o co devia ser de boa raa, e Salamano ficou com um
ar contente. "E para mais, acrescentou, no o conheceu antes
da doena. No havia plo mais bonito do que o dele". Todas
as noites e todas as manhs, desde que o co aparecera com
aquela doena de pele, Salamano punha-lhe pomada. Mas na sua
opinio, a verdadeira doena que o co tinha era a velhice, e a
velhice no cura.
  Nesse momento bocejei, e o velho anunciou que se ia embora.
Disse-lhe que podia ficar e que estava aborrecido com o que Lhe
acontecera ao co: agradeceu -me. Disse-m e q u e a m i n h a
me gostara muito do co. Ao falar dela, chamava -a " a s u a
pobre me". Emitiu a suposio que eu devia sentir-me bem
infeliz desde que a minha me morrera. No respondi. Disse-me
ento, muito depressa e com um ar embaraado, que no bairro me
tinham criticado por a ter mandado para o asilo, mas ele conhecia-
me e sabia que eu gostava muito da minha me. Respondi, no
sei ainda porqu, que ignorava at agora que fosse criticado por
causa disso, mas que o asilo se me afigurara uma coisa muito
natural, pois no tinha recursos para a manter comigo.
"Alm disso, acrescentei ainda, h muito tempo que no tnhamos
nada que dizer um ao outro e que ela se aborrecia sozinha".

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 - "Sim, disse-me ele, e no asilo, ao menos, arranjam-se amigos".
Depois, despediu-se. Queria dormir. A sua vida agora mudara
completamente, e no sabia muito bem o que havia de fazer. Pela
primeira vez desde que nos conhecamos, estendeu-me a mo num
gesto envergonhado e eu senti-lhe as escamas da pele. Teve um
sorriso breve e, antes de sair, disse: "Espero que os ces no ladrem
esta noite. Julgo sempre que  o meu".

No domingo, custou-me tanto a acordar, que foi preciso a Maria
chamar-me e sacudir-me. No comemos, porque queramos tomar
cedo o banho de mar. Sentia-me completamente vazio e doa-me
um pouco a cabea. O meu cigarro tinha um gosto amargo. Maria
fez troa de mim porque dizia que eu estava com uma "cara de
enterro". Pusera um vestido branco e soltara os cabelos. Disse-lhe
que estava bonita e ela riu de contentamento.
   Ao sair, batemos  porta do Raimundo. Respondeu-nos que
j vinha. Na rua, porque estava cansado e tambm porque
no tnhamos aberto as persianas, o dia, j cheio de sol, bateu-
me como uma verdadeira bofetada. Maria saltava de prazer e
no parava de repetir que estava  timo. Senti-me melhor e
reparei que estava com fome. Disse-o a Maria, que me mostrou o
seu saco de praia, onde pusera os nossos dois fatos de banho e
uma t o a l h a . N  o h a v i a n a d a a f a z e r , s e n  o e s p e r a r , e
ouvimos Raimundo fechar a porta. Trazia umas calas azuis e uma
camisa branca, de mangas curtas. Mas pusera na cabea um chapu
de palha, de que Maria se riu muito, e sob os plos negros, tinha os
braos muito brancos. Isto enojava-me um bocadinho. Ao descer,
assobiava e tinha um ar muito contente. Disse-me:
"Ol, p", e tratou Maria por "Menina".
  Na vspera tnhamos ido ao comissariado e eu testemunhara que a
mulher o "enganara". Saiu-se com um aviso e uma reprimenda. No
verificaram a minha informao. Diante da porta, falamos com
Raimundo deste caso, e depois decidimo-nos a tomar o autocarro. A
praia no era longe, mas assim iramos mais depressa. Raimundo
achava que o amigo ficaria contente por chegarmos to cedo. amos
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partir quando Raimundo, de sbito, me fez um sinal para olhar em
frente de mim.
  R e p a r e i n u m g r u p o d e  r a b e s e n c o s t a d o s a u m q u i o s que
de tabacos. Olhavam-nos em silncio, mas  maneira deles, como
se f  s s e m o s  r v o r e s m o r t a s o u s i m p l e s m e n t e p e d r a s .
Raimundo disse-m e q u e " o t i p o " e r a o s e g u n d o a c o n t a r d a
esquerda, e fez um ar preocupado. Acrescentou que, no entanto, o
caso era agora histria antiga. Maria no compreendia muito bem,
e perguntou-n o s o q u e s e p a s s a v a . D i s s e -l h e q u e e r a m u n s
rabes, r e s s e n t i d o s c o n t r a R a i m u n d o . M a r i a q u i s q u e n o s
fssemos embora imediatamente. Raimundo endireitou-se e riu,
dizendo para nos despacharmos.
  Fomos para a paragem dos autocarros, que ficava um pouco mais
longe, e Raimundo anunciou que os rabes no nos haviam seguido.
Voltei-me para trs. Continuavam no mesmo lugar e olhavam com a
mesma indiferena o stio que acabvamos de deixar. Tomamos o
autocarro. Raimundo, que parecia aliviado, no parava de gracejar
em inteno de Maria. Senti que esta lhe agradava, mas vi - que ela
no lhe respondia quase nunca.
De tempos a tempos, Maria olhava-me e ria.

  Descemos numa paragem dos arredores de Argel. A praia
no f i c a v a l o n g e . M a s f o i p r e c i s o a t r a v e s s a r u m p e q u e n o
planalto que domina o mar e que desce em seguida para a praia.
Estava coberto de pedras amareladas e de abrteas brancas, sob o
azul j duro do cu. Maria divertia-se a espalhar as ptalas
destas flores, batendo-l h e s c o m o s a c o d e p r a i a . M a r c h a mos
entre f i l a s d e p e q u e n a s v i v e n d a s c o m c e r c a s v e r d e s o u
brancas, algumas escondidas, com as suas varandas, entre os
tamarizes, e outras, nuas e despojadas, no meio das pedras. Antes
de chegar  borda do planalto, podia-se j ver o mar imvel e, mais
longo, um cabo macio e sonolento na gua clara. Subiu at ns, no
ar calmo, um ligeiro barulho de motor. E vimos, muito longe, uma
pequena canoa que avanava imperceptivelmente no mar brilhante.

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Maria agarrou em alguns estilhaos de rocha. Da encosta que descia
para o mar, vimos que j estavam vrios banhistas na praia.
  O amigo de Raimundo morava numa casita de madeira, no extremo
da praia. A casa encostava-se  rocha e as traves que a sustinham 
frente mergulhavam j na gua. Raimundo apresentou-nos. O amigo
- chamava-se Masson. Era um tipo alto, entroncado, com ombros
largos, e a mulher dele era baixa, gorda e simptica, com um
sotaque parisiense. Disse imediatamente para nos pormos  vontade
e que tinha para o almoo uns peixes fritos que ele mesmo pescara
de manh.
Disse-Lhe que achava a casa muito bonita, e ele informou-me que
passava ali o sbado, o domingo, e todos os feriados. "Com a minha
mulher,  claro", acrescentou. Justamente, esta e Maria riam-se de
qualquer coisa. Pela primeira vez, pensei seriamente que me ia
casar.
  Masson queria tomar banho, mas a mulher e Raimundo
no queriam ir. Descemos os trs e Maria atirou-se logo  gua.
Masson e eu, esperamos ainda um pouco. Masson falava
muito devagar e notei que tinha o costume de completar tudo
quanto dizia por um "e direi mesmo mais", mesmo quando, no
fundo, nada acrescentava ao sentido da frase. A propsito de
Maria, disse: "estupenda e, direi mesmo mais, encantadora".
Depois, deixei de prestar ateno a este tique, pois ocupava-me
agora em sentir que o sol me sabia bem. A areia comeava-me
 aquecer, sob os ps: Retardei mais um bocado a vontade
que tinha de ir para a gua, mas acabei por dizer a Masson:
 "Vamos?" Mergulhei. Ele, entrou lentamente n a  g u a , e
s mergulhou quando perdeu o p. Nadava de bruos, bastante
mal, de modo que o deixei para trs para ir ter com Maria. A
gua estava fria e era bom nadar. Afastei-me com Maria e sentamo-
nos os dois de acordo nos nossos gestos e no nosso contentamento.
  Ao largo, pusemo-nos a boiar de costas e, na minha cara voltada
para o cu, o sol afastava os ltimos vus de gua que me
escorriam para a boca. Vimos que Masson regressara  praia e se
estendera ao sol. De longe, parecia enorme. Maria quis que
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nadssemos juntos. Coloquei-me por detrs dela, segurando-a pela
cintura e ela avanava  fora de braos, enquanto eu a ajudava
batendo os ps. O pequeno barulho da gua batida seguiu-nos ao
longo da manh, at que me senti cansado. Deixei ento Maria e
voltei para a praia, nadando compassadamente e respirando bem:
Uma vez na praia, estendi-me de barriga para baixo ao p de
Masson e descansei a cara na areia. Disse-lhe que "era bom" e ele
tinha a mesma opinio.
 Depois, Maria veio ter conosco, Voltei-me para a ver. Estava viscosa
da gua salgada e tinha os cabelos cados para trs.
Estendeu-se encostada a mim e os dois calores, o do corpo dela e o
do sol, adormeceram-me um pouco.
  Maria sacudiu-me e disse-me que Masson j fora para casa e era
preciso ir almoar. Levantei-me imediatamente porque tinha fome,
mas Maria disse-me que no voltara a beij-la desde manh. Era
verdade, e tambm eu tinha vontade de a beijar.
"Vem para a gua", disse-me ela. Corremos e deixamo-nos cair nas
primeiras ondas, Fizemos algumas braadas e ela encostou-se a
mim. Senti as pernas dela em volta das minhas e desejei-a.
  Quando voltamos, j Masson nos chamava. Disse que estava cheio
de fome e o dono da casa declarou logo  mulher que eu lhe
agradava: O po era bom e devorei a minha poro de peixe.
Depois, havia carne e batatas fritas. Comamos sem falar.
Masson bebia muito vinho e servia-me sem parar. Ao caf, tinha a
cabea um pouco pesada e fumei muito. Masson, Raimundo e eu
encaramos a hiptese de passar o ms de Agosto na praia, dividindo
as despesas: Maria perguntou de repente: "Sabem que horas so?
So onze e meia". Estvamos todos admirados, mas Masson disse
que se tinha comido muito cedo, o que era natural, pois a hora do
almoo era a hora em que se tinha fome. No sei por que motivo
Maria se riu tanto com isto.
Julgo que bebera demais. Masson perguntou-me ento se queria ir
dar com ele um passeio pela praia. "A minha mulher dorme sempre
a sesta depois de almoo. Eu, no gosto disso. Preciso andar. Digo-
lhe sempre que  melhor para a sade. Mas no fim de contas, est
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no seu direito". Maria declarou que ficava, para ajudar a dona da
casa a lavar a loua. Esta disse que, para isso, era preciso pr os
homens na rua.
Descemos os trs.
  O sol caa quase a pique sobre a praia e o seu brilho no mar era
insustentvel. J no estava ningum na praia. Nas casas ao longo
do planalto e que olhavam para o mar, ouvia-se o barulho de pratos
e de talheres. Mal se respirava, neste calor de pedra que subia do
cho. Para principiar, Raimundo e Masson falaram de coisas e
pessoas que eu ignorava. Percebi que se conheciam h muito tempo
e que, a certa altura, tinham mesmo vivido juntos. Dirigimo-nos
para a gua e andamos  beira do mar. s vezes, uma onda mais
comprida do que as outras, vinha molhar-nos os sapatos de
borracha. No pensava em nada, porque estava meio adormecido
com todo este sol na minha cabea descoberta.. A certa altura,
Raimundo disse a Masson qualquer coisa que no consegui ouvir
muito bem. Mas distingui ao mesmo tempo, no fim da praia e muito
longe de ns, dois rabes vestidos de azul, que vinham na nossa
direo. Olhei para Raimundo, que me disse: " ele". Continuamos a
andar. Masson perguntou como  que eles nos podiam ter seguido
at aqui.
Pensei que nos tinham visto tomar o autocarro com um saco
de praia, mas no disse nada.
  Os rabes avanavam lentamente e estavam j muito mais perto.
No modificamos o nosso andamento, mas Raimundo disse:
"Se houver pancada, tu, Masson, ficas com o segundo.
Eu, encarrego-me do meu tipo. Tu, Meursault, se vier outro rabe, 
para ti". Respondi: "Est bem", e Masson meteu as mos
nas algibeiras. A areia a ferver parecia-me agora vermelha.
 Avanamos no mesmo passo para os rabes. A distncia entre
ns foi diminuindo pouco a pouco: Quando no estvamos seno
a alguns passos uns dos outros, os rabes detiveram-se. Masson
e eu comeamos a andar mais devagar. Raimundo foi direito ao "seu
tipo". No percebi muito bem o que lhe disse, mas o outro fez
meno de lhe dar uma cabeada. Raimundo deu ento o primeiro
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soco e logo a seguir chamou Masson. Masson dirigiu-se ao que Lhe
fora destinado e deu-Lhe dois socos com toda a fora. O outro caiu
no mar, de barriga para baixo, a cara dentro de gua e ficou assim
alguns segundos, perto da cabea dele, rebentavam  superfcie
bolhas de ar. Durante este tempo, Raimundo continuou a lutar e o
outro tinha a cara cheia de sangue. Raimundo voltou-se para mim e
disse: "Vais ver o que ele vai apanhar!" Gritei-lhe: "Ateno, o tipo
tem uma navalha!" Mas, Raimundo tinha j o brao aberto e um
golpe na boca.
  Masson deu um salto para a frente. Mas o outro rabe levantara-se
e colocara-se atrs do que estava armado. No ousamos mexer-nos.
Os rabes recuaram lentamente, sem deixar de nos falar e de nos
ameaa r c o m a n a v a l h a . Q u a n d o v i r a m q u e a distncia era
suficiente, fugiam muito depressa, enquanto ns ficvamos ali
pregados, ao sol, e Raimundo agarrava no brao a escorrer sangue.
  Masson disse imediatamente que conhecia um mdico que passava
os domingos no pequeno planalto. Raimundo quis ir sem demora
tratar das feridas. Mas, cada vez que falava, o sangue borbulhava-
Lhe na boca. Ajudando-o a andar, voltamos para casa o mais
depressa possvel. A, Raimundo disse que afinal as feridas eram
superficiais e que podia ir j ao mdico. Saiu com Masson e eu fiquei
para explicar s mulheres o que se tinha passado. A mulher de
Masson chorava e Maria estava muito plida. Era aborrecido, ter de
Lhes explicar. Por fim, calei-me e pus-me a fumar, olhando para a
paisagem do mar.
  Pela uma e meia, Raimundo e Masson voltaram. Raimundo trazia o
brao ligado e adesivo no canto da boca. O mdico dissera-Lhe que
no fora nada de importante, mas estava com um ar sombrio.
Masson tentou faz-lo rir. Mas ele no dizia nada.
 A certa altura, disse que queria descer  praia, e eu perguntei-lhe
onde ia. Respondeu que lhe apetecia apanhar ar.
Masson e eu dissemos que o acompanhvamos. Ento, encolerizou-
se e insultou-nos. Masson declarou que no devamos contrari-lo.
Apesar disso, fui com ele.

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  Andam o s m u i t o t e m p o , a o l o n g o d a p r a i a . O s o l e s t a v a
agora esmagador. Estilhaava-s e n a p r a i a e n o m a r . T i v e a
impresso de que Raimundo sabia onde ia, mas talvez estivesse
enganado.
Mesmo no fim da praia, chegamos a uma pequena fonte q ue
corria p a r a a a r e i a , e m d i r e   o a o m a r , p o r d e t r  s d e u m
grande rochedo. A, encontramos os dois rabes. Estavam deitados,
com o s s e u s t r a j e s a z u i s e s u j o s . T i n h a m u m a r c a l m o e
quase beatfico. A nossa chegada n  o o s i n c o m o d o u . O q u e
ferira Raimundo, olhava-o sem dizer uma palavra. O outro soprava
numa flauta feita  mo e repetia interminavelmente, olhando-nos
de vis , as trs notas que conseguia obter do instrumento.
  Durante todo este tempo, havia s o sol e este silncio, com o leve
rudo da nascente e das trs notas musicais. Depois Raimundo levou
a mo  algibeira de trs das calas, mas o outro no se moveu.
Continuavam a fitar-se.
 Reparei que o que tocava flauta tinha os dedos dos ps
muito a f a s t a d o s . S e m t i r a r o s o l h o s d o a d v e r s  r i o ,
Raimundo perguntou-me: "Dou cabo dele?" Pensei que, se dissesse
que n  o , f i c a r i a e x c i t a d o e d i s p a r a r i a c o m c e r t e z a .
Disse unicamente: "O tipo ainda no disse nada. Disparar assim
sem mais nem menos, no seria bonito". Ouviu-se ainda o leve
rudo da gua e da flauta, no corao do silncio e do calor.
D e p o i s , R a i m u n d o d i s s e : " E n t  o v o u i n s u l t  -l o e q u a n d o
ele responder ,dou cabo dele". Respondi: "Isso mesmo. Mas se
o tipo no puxar da navalha, no podes atirar". Raimundo
comeou a enervar-s e . O o u t r o c o n t i n u a v a a t o c a r e o s d o i s
observavam atentamente os gestos de Raimundo. "No, disse eu a
Raimundo.
Vai-t e a e l e , h o m e m a h o m e m e d  -m e o r e v  l v e r . S e o
outro intervm ou se puxa a navalha, mato-o".
  Quando Raimundo me deu o revlver, o sol refletiu-se na arma.
Ficamos imveis, como se tudo se houvesse fechado em nossa volta.
Olhvamo-nos sem baixar os olhos e tudo aqui se detinha entre o
mar, a areia, o sol, e o duplo silncio da flauta e da gua.
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   Pensei neste instante que disparar ou no disparar, era tudo o
mesmo. Mas bruscamente, os rabes comearam a recuar
e desapareceram por detrs d o r o c h e d o . R a i m u n d o e e u
voltamos ento para casa. Raimundo parecia estar melhor e falou
no autocarro da volta.
  Acompanhei-o at casa e, enquanto ele subia a escada de madeira,
eu fiquei no primeiro degrau, a cabea cheia de sol, sem coragem
para o esforo que era preciso fazer para subir as escadas de
madeira e voltar a abordar as mulheres. Mas o calor era to grande
que me era igualmente penoso ficar assim imvel, sob a chuva de
luz que caa do cu. Ficar aqui ou partir, vinha a dar na mesma. Ao
fim de alguns instantes, voltei para a praia e comecei a andar.
  Era o mesmo brilho avermelhado. Na areia, o mar ofegava com a
respirao rpida e abafada das pequenas ondas que se sucediam
umas s outras. Dirigia-me lentamente para os rochedos e sentia
que a testa me inchava, sob o peso do sol.
Todo este calor se apoiava contra mim, opondo-se ao meu avano. E
cada vez que sentia o sopro quente deste calor enorme na minha
cara, cerrava os dentes, apertava os punhos nas algibeiras das
calas, retesava-me todo para triunfar do sol e da embriagues opaca
que caa sobre mim. A cada espada de luz surgida da areia, de uma
c o n c h a e s b r a n q u i  a d a o u d e u m vidr o p a r t i d o , o s q u e i x o s
crispavam-se-me. Andei assim durante muito tempo.
   Distinguia, de longe, a pequena massa sombria do
rochedo, rodeado de uma aurola formada pela luz e pela poeira do
mar.
Pensava na nascente fresca que havia por detrs do rochedo.
De s e j a v a r e e n c o n t r a r o m u r m  r i o d a  g u a q u e d e l a
brotava, d e s e j a v a f u g i r a o s o l , a o e s f o r  o ,  s l  g r i m a s d a
mulher, desejava enfim, reencontrar a sombra e o repouso. Mas
quando cheguei mais perto, vi que o rabe de Raimundo voltara ali.
  Estava s. Descansava de costas, as mos debaixo da nuca,
a cabea nas sombras do rochedo e o resto do corpo ao sol. O
seu trajo azul fumegava de calor. Fiquei um pouco admirado.

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Para mim, era histria antiga, e viera para aqui sem pensar no caso.
Logo que me viu, levantou-se e meteu a mo na algibeira.
Eu, muito naturalmente, agarrei no revlver de Raimundo, dentro do
casaco. Ento, o rabe deixou-se cair outra vez para trs, mas sem
tirar a mo da algibeira.
 Eu estava bastante longe dele, a uns dez metros de distncia.
Adivinhava-L h e p o r i n s t a n t e s o o l h a r , e n t r e a s
plpebras semicerradas. Mas a maioria das vezes, a imagem dele
danava diante dos meus olhos, na atmosfera inflamada. O barulho
das vagas era ainda mais preguioso do que ao meio-dia. Eram
o mesmo sol e a mesma luz, que se prolongavam at este momento.
H j duas horas que o dia deitara a sua ncora neste oceano de
metal fervente. No horizonte, passou um pequeno vapor.
Adivinhei-lhe a mancha negra com o canto do olho, pois no cessava
de fitar o rabe.
  Pensei que me bastava voltar para trs e tudo ficaria resolvido. Mas
atrs de mim, comprimia-se uma imensa praia vibrante de sol. Dei
alguns passos para a nascente. O rabe no se moveu. Apesar
disso, estava ainda bastante longe.
Parecia sorrir, talvez por causa das sombras que se lhe projetavam
na cara. Esperei. A ardncia do sol queimava-me as faces e senti o
suor amontoar-se-me nas sobrancelhas. Era o mesmo sol do dia em
que a minha me fora a enterrar e, como ento, doa-me a testa,
sobretudo a testa e todas as suas veias batiam ao mesmo tempo
debaixo da pele. Por causa desta queimadura que j no podia
suportar mais, fiz um movimento para a frente. Sabia que era
estpido, que no me iria desembaraar do sol, simplesmente por
dar um passo em frente. Mas dei um passo, um s passo em frente.
E desta vez, sem se levantar, o rabe tirou a navalha da algibeira
e mostrou-ma ao sol. A luz refletiu-se no ao e era como uma longa
lmina faiscante que me atingisse a testa. No mesmo momento, o
suor amontoado nas sobrancelhas correu-m e d e s  b i t o pelas
plpebras abaixo e cobriu-as com um vu morno e espesso.
Os meus olhos ficaram cegos, por detrs desta cortina de lgrimas e
de sal. Sentia apenas as pancadas do sol na testa e, indistintamente,
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a espada de fogo brotou da navalha, sempre diante de mim. Esta
espada a arder corroa-me as pestanas e penetrava-me nos olhos
doridos. Foi ento que tudo vacilou. O mar enviou-me um sopro
espesso e fervente. Pareceu-me que o cu se abria em toda a sua
extenso, deixando tombar uma chuva de fogo. Todo o meu ser se
retesou e crispei a mo que segurava o revlver. O gatilho cedeu,
toquei na superfcie lisa da coronha e foi a, com um barulho ao
mesmo tempo seco e ensurdecedor, que tudo principiou.
 Sacudi o suor e o sol. Compreendi que destrura o equilbrio do dia,
o silncio excepcional de uma praia onde havia sido feliz. Voltei
ento a disparar mais quatro vezes contra um corpo inerte onde as
balas se enterravam sem se dar por isso.
E era como se batesse quatro breves pancadas  porta da desgraa.

                             SEGUNDA PARTE

 Logo a seguir  minha priso, fui interrogado por vrias vezes. Mas
tratava-se de interrogatrios de identidade, que no duraram muito
tempo. A primeira vez, no comissariado, o meu caso parecia no
interessar a ningum. Oito dias depois, ao contrrio,. O juiz de
instruo olhou-me com curiosidade.
Mas, para comear, perguntou-me apenas o nome e a morada,
a profisso, a data e o local do nascimento. Depois quis saber se eu
j escolhera advogado. Respondi que no e perguntei-lhe se era
absolutamente necessrio ter advogado. "Por q u e ?", disse ele.
Repliquei, afirmando que achava o meu caso muito simples.
 Sorriu, dizendo: " uma opinio. No entanto, a lei  a lei. Se o
s e n h o r n  o q u e r q u e m o d e f e n d a , n  s n o m e a m os
automaticamente advogado". Achei que era muito cmodo a justia
encarregar-se desses pormenores. Disse-lho. Concordou comigo e
concluiu que a lei estava bem feita.
  N o c o m e  o , n  o o t o m e i a s  r i o . R e c e b e u -me numa sala
com reposteiros nas paredes. Tinha em cima da secretria um
nico c a n d e e i r o , q u e i l u m i n a v a a c a d e i r a o n d e m e m a n d o u
sentar, e n q u a n t o e l e f i c a v a n a s o m b r a . T i n h a j  l i d o
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descries parecidas em livros, e tudo isto me pareceu uma
brincadeira.
Depois da nossa conversa, pelo contrrio, olhei-o e vi um homem de
traos finos, profundos olhos azuis, muito alto, com um comprido
bigode grisalho e uma abundante cabeleira quase branca. Afigurou-
se-me uma pessoa razovel e, no fim de contas, simptica, apesar
dos tiques nervosos que, de quando em quando, lhe deformavam a
boca.  sada ia mesmo para lhe estender a mo, mas lembrei-me a
tempo de que era um assassino.
  No dia seguinte, um advogado veio falar comigo  priso.
 Era baixo e gordo, bastante novo ainda, os cabelos cuidadosamente
penteados com fixador. Apesar do calor (eu estava em mangas de
camisa), envergava um fato escuro, um colarinho duro e uma
gravata esquisita, com grandes riscas pretas e brancas. Ps em cima
da cama a pasta que trazia debaixo do brao, apresentou-se e disse
que estudara o meu processo. O meu caso era delicado, mas se eu
tivesse confiana nele, no duvidava do xito final. Agradeci-lhe e
ele disse-me: "Entremos no fundo da questo".
  Sentou-se na cama e explicou-me que tinham andado a investigar
a minha vida privada. Tinham descoberto que a minha me morrera
recentemente no asilo. Procedera-s e e n t  o a u m inqurito em
Marengo. Os investigadores tinham sabido que eu "dera provas de
insensibilidade" no dia do enterro. "Veja se compreende, disse o
advogado, custa-me um bocado perguntar-lhe isto. Mas  muito
importante. E ser um grande argumento para a acusao, se eu
no conseguir dar resposta". Queria que eu o ajudasse. Perguntou-
me se eu, nesse dia, tinha tido pena da minha me. Esta pergunta
muito me espantou e parecia-me que no era capaz de a fazer a
algum.
 No obstante, respondi que perdera um pouco o hbito de
me interrogar a mim mesmo e que era difcil dar-lhe uma resposta.
 claro que gostava da minha me, mas isso no queria dizer nada.
Todos os seres saudveis tinham, em certas ocasies, desejado mais
ou menos, a morte das pessoas que amavam. Aqui, o advogado
cortou-me a palavra e mostrou-se muito agitado.
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Obrigou-me a prometer que no diria isto na audincia, nem ao juiz
de instruo. Expliquei-Lhe, no entanto, que a minha natureza era
feita de tal modo que as minhas necessidades fsicas perturbavam
frequentemente os meus sentimentos. No dia do enterro, estava
muito cansado e com muito sono. De forma que no dei l muito
bem pelo que se passou. O que podia afirmar, com toda a certeza,
era que preferia que a me no tivesse morrido. Mas o advogado
no ficou contente. Disse:
"Isso no chega".
  Ps-se a pensar. Perguntou-me se se poderia dizer que, nesse dia,
eu reprimira os meus sentimentos naturais. Respondi:
" N  o , p o r q u e n  o  v e r d a d e " . O l h o u -m e d e u m m o d o
estranho, como se eu lhe inspirasse uma certa repulsa. Disse-me
quase maldosamente q u e , d e q u a l q u e r f o r m a , o d i r e t o r e o
pessoal do asilo seriam ouvidos como testemunhas, o que "seria
sem d  v i d a m u i t o m a u p a r a m i m " . F i z -l h e n o t a r q u e e s s a
histria no tinha nenhuma relao com o meu caso, mas ele
respondeu-me que se via bem que eu no conhecia a justia de
perto.
  Foi-se embora com um ar zangado. Teria querido ret-lo, explicar-
lhe que desejava a simpatia dele, no para ser mais bem defendido,
mas, se assim me posso exprimir, naturalmente.
Percebia, sobretudo, q u e o p u n h a p o u c o  v o n t a d e . N  o
me c o m p r e e n d i a e d e s c o n f i a v a u m b o c a d i n h o d e m i m .
Desejava afirmar-lhe que era como toda a gente, absolutamente
como toda a gente. Mas tudo isso, no fundo, no era de grande
utilidade e, por preguia, renunciei a esta inteno.
  Pouco tempo depois, fui outra vez levado ao juiz de instruo.
Eram duas horas da tarde e, desta vez, o escritrio estava cheio de
luz, uma luz que a cortina da janela mal conseguia abrandar. O calor
apertava. Mandou-me sentar e, muito amavelmente, declarou que o
m e u a d v o g a d o , " d e v i d o a u m contratempo", no pudera
comparecer. Mas eu tinha todo o direito de no lhe responder s
perguntas, e de esperar at que o advogado pudesse estar presente.

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 Disse que podia perfeitamente responder sozinho. Apoiou um dedo
numa campainha, debaixo da mesa. Um escrivo ainda novo veio
colocar-se atrs das minhas costas.
  Instalamo-nos os dois confortavelmente nas nossas poltronas.
O interrogatrio principiou. Disse-me antes de mais nada, que me
pintavam como tendo um carter taciturno e fechado, e quis saber a
minha opinio a este respeito. Respondi: "que, como nunca tenho
quase nada a dizer, prefiro calar-me". Sorriu como da primeira vez,
concordou que era uma razo de peso e acrescentou: "Alis, no
tem importncia nenhuma". Calou-se, olhou para mim, e levantou-
se bruscamente na cadeira, dizendo:
"O que me interessa,  o senhor!" No compreendi o que ele queria
d i z e r e n  o respondi. "H coisas, acrescentou ainda, que me
escapam, no seu gesto. Estou certo de que me ajudar
a compreender melhor". Repliquei que era muito simples. Pediu-
me para lhe contar o que fizera nesse dia. Voltei a descrever o que
j lhe tinha contado: Raimundo, a praia, o banho, a disputa, outra
vez a praia, a pequena nascente, o sol e os cinco disparos do
revlver.
      A cada frase, ele dizia: "Bem, bem". Quando cheguei ao
corpo estendido na areia, aprovou-me, dizendo: "Bom." Quanto a
mim, estava cansado de repetir sempre a mesma histria e tinha
a impresso de nunca ter falado tanto. Depois de um silncio, o juiz
levantou-se e disse que me queria ajudar, que o meu caso o
interessava e, com a ajuda de Deus, faria qualquer coisa por mim.
M a s a n t e s , q u e r i a d irigir-m e a i n d a a l g u m a s p e r g u n t a s .
Sem transio, perguntou se eu gostava da minha me. Redargi:
"Sim, como toda a gente". E o escrivo que, at aqui escrevia em
ritmo normal  mquina, enganou-se e teve que voltar atrs.
Ainda sem lgica aparente, o juiz perguntou-me ento se disparara
os cinco tiros a seguir. Pensei um bocado e especifiquei que
disparara primeiro um s tiro e, alguns segundos depois, os outros
quatro. "Porque fez uma pausa entre o primeiro e o segundo tiro?",
disse ele. Mais uma vez, voltei a ver a praia avermelhada e senti na
testa a ardncia do sol.
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Mas desta vez, no respondi nada. Durante todo o silncio que se
seguiu, o juiz pareceu agitado. Sentou-se, mexeu nos cabelos, ps
os cotovelos em cima da secretria e debruou-se um pouco para
mim com um ar estranho:
 "Porque foi o senhor, porque foi o senhor disparar contra um corpo
cado?" Tambm no soube responder. O juiz passou a mo pela
testa e repetiu a pergunta, com a voz um pouco alterada:
"Por qu?  preciso que me diga. Por qu?" Eu continuava calado.
  Bruscamente levantou-se, dirigiu-se com grandes passadas para a
extremidade da secretria e abriu uma gaveta. Tirou um crucifixo de
prata e, agitou-o no ar, voltando para o p de mim. E, com uma voz
completamente diferente, quase trmula, gritou: "Conhece-O,
conhece-O?" Respondi: "Sim,  claro que conheo". Disse-me ento
muito depressa e de um modo apaixonado que acreditava em Deus,
que nenhum homem era suficientemente culpado para que Deus no
lhe perdoasse, mas que para isso era necessrio que o homem, pelo
seu arrependimento, se transformasse como que numa criana,
cuja alma est vazia e pronta a acolher tudo. Todo o seu corpo
se debruava sobre a mesa. Agitava o crucifixo diante dos
meus olhos. Para dizer a verdade, eu mal seguira o raciocnio
dele, p r i m e i r o p o r q u e t i n h a c a l o r e p o r q u e v o a v a m n o
escritrio grandes moscas que me vinham pousar na cara, e em
seguida, porque me assustava um bocadinho.
  Reconhecia, ao mesmo tempo, que esta sensao era ridcula, pois
afinal o criminoso era eu. Continuou, no entanto.
Compreendi pouco a pouco que, na opinio dele, havia apenas
um ponto obscuro na minha confisso, o fato de ter esperado entre
o primeiro e o segundo disparo. Quanto ao resto estava bem, mas
isso  que ele no conseguia compreender.
  Ia dizer-lhe que no valia a pena obstinar-se: este ltimo ponto
no tinha tanta importncia como isso. Mas ele interrompeu-me e
exortou-me pela ltima vez, olhando-me de alto e perguntando-me
se eu acreditava em Deus. Respondi que no.
  Sentou-se indignadamente. Disse-m e q u e e r a i m p o s s  v e l ,
que todos os homens acreditavam em Deus, mesmo os que no
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o queriam ver. A convico dele era essa e, se um dia duvidasse, a
vida deixaria de ter sentido. "Quer o senhor, exclamou, que a minha
vida deixe de ter sentido?" Eu achava que no tinha nada com isso,
e disse-lho. Mas, atravs da mesa, estendeu a imagem de Cristo e
exclamou: "Eu, sou cristo. Peo perdo pelos teus pecados a Este.
  Como podes no acreditar que Ele sofreu por ti?"
   Reparei que me estava a tratar por tu... Mas estava farto. O calor
apertava cada vez mais. Como sempre que me quero desembaraar
de algum que j nem estou a ouvir, fiz meno de aprovar. Com
grande surpresa minha, tomou um ar de triunfo:
"Vs, vs!" dizia ele. No  verdade que crs e que te vais confiar a
Ele?  claro que, uma vez mais, disse que no.
Voltou a deixar-se cair na cadeira.
  Tinha um ar muito cansado. Deixou-se ficar calado durante alguns
momentos, enquanto a mquina de escrever, que no deixara de
seguir o dilogo, prolongava ainda as ltimas frases. Em seguida,
olhou-me atentamente e com um bocadinho de tristeza: Murmurou:
"Nunca tinha visto uma alma to empedernida como a sua. Os
criminosos que aqui vieram, choraram sempre diante desta imagem
da dor". Ia responder que isso sucedia porque, justamente eram
criminosos. Mas pensei que, afinal, tambm eu era como eles. No
me conseguia habituar a esta idia... O juiz levantou-se ento, como
se quisesse significar que o interrogatrio acabara.
Perguntou-m e a p e n a s , c o m o m e s m o a r u m p o u c o f a t i g a d o ,
se estava arrependido do - meu gesto. Meditei e disse que, mais do
que verdadeiro arrependimento, experimentava um
certo aborrecimento. Tive a impresso de que no me compreendia.
Mas nesse dia, as coisas no foram mais longe.
  Mais tarde, voltei a estar vrias Vezes com o juiz. Mas agora,
sempre acompanhado do advogado. Limitavam-se a pedir-me para
pormenorizar certos pontos das minhas anteriores declaraes. Ou
ento, o juiz discutia as acusaes com o advogado. Mas nesse
momento no se ocupavam de mim. Pouco a pouco, em todos os
casos, o tom do interrogatrio foi-se modificando. Parecia que o juiz
j se no interessava por mim e que, de algum modo, classificara j
                                       48
o meu caso. No voltou a falar-me de Deus e no voltei a v-lo com
a excitao do primeiro dia. O resultado  que as nossas conversas
se tornaram mais cordiais. Algumas perguntas, umas frases trocadas
com o meu advogado e pronto, o interrogatrio acabara. O caso
seguia o seu curso, na expresso do juiz. Por vezes, quando a
conversa era de ordem geral, eu tambm entrava. Comeava a
poder respirar. Ningum era mau comigo, nesses momentos. Tudo
era to natural, to bem regulado e to sobriamente representado,
que tinha a impresso ridcula de "fazer parte da famlia". E ao fim
dos onze meses que durou a instruo do processo, posso dizer que
quase me espantava de alguma vez ter gostado tanto de uma coisa,
como desses raros instantes em que o juiz me levava  porta do
gabinete, batendo-me no ombro e dizendo com um ar cordial: "Por
hoje acabou, Sr. Anti-Cristo". Entregavam-me ento outra vez
nas mos dos polcias.
     H coisas de que prefiro no falar. Quando entrei para a priso,
percebi logo ao fim de poucos dias que no gostaria de falar dessa
parte da minha vida. Mais tarde, deixei de atribuir importncia a
essas repugnncias. Na realidade, nos primeiros dias no estava
verdadeiramente na priso: esperava vagamente que surgisse
qualquer acontecimento novo. Foi apenas depois da primeira e
ltima visita de Maria que tudo principiou.
   A partir do dia em que recebi a carta dela (dizia que no
a deixavam vir visitar-m e , p o i s n  o e r a m i n h a m u l h e r ) , a
partir desse dia senti que a minha casa era a minha cela, e que a
vida parava a. No dia em que me prenderam, fecharam-me primeiro
num quarto onde j havia muitos detidos, a maioria deles rabes. Ao
verem-me, comearam a rir. Depois perguntaram-me o que  que
eu tinha feito. Disse que tinha morto um rabe e eles calaram-se
t o d o s . M a s u n s m o m e n tos d e p o i s , c a i u a n o i t e . O s  r a b e s
explicaram-me como devia arranjar a enxerga onde me havia de
deitar. Enrolando u m a d a s extremidades, improvisava-s e u m
travesseiro. Durante toda a noite, passearam-me piolhos pela cara.
Alguns dias depois, isolaram-me numa cela, onde me deitava numa
cama de madeira.
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Dispunha de uma bacia de ferro. A priso ficava na parte de cima da
cidade e, da minha pequena janela, podia ver o mar.
Foi num dia em que estava agarrado s grades, a cara voltada para
a luz, que um guarda entrou, dizendo-me que tinha uma visita.
Pensei que era Maria. Era ela, de fato.
  Atravessei um corredor comprido, depois umas escadas e,
para a c a b a r , o u t r o c o r r e d o r . E n t r e i n u m a s a l a m u i t o
grande, iluminada por uma vasta janela. A sala era dividida em
trs partes por dois gradeamentos que a cortavam no comprimento.
Entre os dois gradeamentos havia um espao de oito a dez metros
que separava os visitantes dos prisioneiros. Vi que Maria estava em
frente de mim, com o seu vestido s riscas e a sua cara queimada
pelo sol. Do meu lado havia uma dzia de presos, quase todos
rabes. Maria estava rodeada de Mouros, entre duas visitantes, uma
velhinha de beios cerrados, vestida de preto e uma mulher gorda,
em cabelo, que falava muito alto, com grande abundncia de gestos.
Por causa da distncia entre os gradeamentos, os visitantes e os
presos viam-se obrigados a falar quase aos gritos. Quando entrei,
o barulho das vozes, fazendo eco nas grandes paredes nuas da sala
e a luz crua que corria do cu para os vidros e se refletia na sala,
causaram-me uma espcie de vertigem. A minha cela era mais
calma e mais sombria. Precisei de alguns segundos para me adaptar.
Acabei, no entanto, por ver com nitidez cada cara, como se se
recortasse no dia claro.
Observei que havia um guarda sentado na extremidade do corredor,
entre os dois gradeamentos. A maioria dos prisioneiros rabes,
assim como as suas famlias, estavam de ccoras frente a frente.
Estes no gritavam. Apesar do tumulto que ali reinava, conseguiam
entender-se, falando em voz baixa. Este murmrio surdo, vindo de
mais baixo, formava como que um contnuo sublinhado das
conversas que se cruzavam por cima das suas cabeas. Observei
tudo isto muito depressa, e a v a n c e i p a r a M a r i a . C o l a d a a o
gradeamento, sorria-me com quantas foras tinha. Estava muito
bonita, mas no fui capaz de lho dizer. "Ento?", disse ela em voz

                                         50
alta. "Ento, aqui estou. - Ests bem, tens tudo o que precisas? -
Sim, tenho".
  Calamo-nos e Maria continuava a sorrir. A mulher gorda berrava
com o meu vizinho, o marido possivelmente, um tipo alto e loiro,
com um olhar franco. Era o prosseguimento de uma conversa j
iniciada.
 A Joana no quis aceitar, gritava ela. "Sim, sim", dizia o homem.
"Disse que tu o irias buscar outra vez quando sasses, mas ela no
quis aceitar".
  Maria gritou por sua vez que o Raimundo me mandava um
abrao e eu disse: "Obrigado". Mas a minha voz foi abafada pela
do meu vizinho, que perguntou "que t a l ia ele". A mulher riu-se,
dizendo "que nunca se sentira to bem. O meu vizinho da esquerda,
um rapazinho de mos muito finas, no dizia nada.
Reparei que estava em frente da velhinha e que os dois se olhavam
intensamente. Mas no tive tempo de os observar mais detidamente,
pois Maria me estava a dizer que era preciso ter esperana. Disse:
"Sim". Ao mesmo tempo olhava-a e sentia vontade de lhe apertar o
ombro por cima do vestido. Sentia vontade desse tecido delicado e,
fora isso, no sabia muito b e m e m q u e  q u e h a v i a d e t e r
esperana. Mas era isso, sem dvida, o que Maria queria dizer, pois
continuava a sorrir.
Via apenas o brilho dos seus dentes e as pequenas rugas junto aos
seus olhos. Voltou a gritar: "Vais sair depressa e depois, casamo-
nos!" Respondi: "Achas que sim?", mas era, sobretudo, para dizer
alguma coisa. Redargiu ento muito depressa e sempre em voz
altssima que sim, que eu seria absolvido, que voltaramos a tomar
banhos de mar. Mas outra mulher gritava mesmo ao lado de ns,
dizendo que deixara o cesto  porta.
Enumerava tudo o que tinha dentro do cesto. Era preciso verificar,
pois tudo que l havia dentro era muito caro. O meu outro vizinho e
a me continuavam a fitar-se.
   O murmrio dos rabes tambm continuava a ouvir-se, abaixo de
ns. L fora, a luz parecia inchar-se de encontro  janela.
Correu por todas as caras, como um sumo novo.
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  No me sentia muito bem e gostaria de me ir embora. O barulho
incomodava-me. Mas por outro lado, queria gozar da presena de
Maria. No sei quanto tempo passou. Maria falou -me do seu
trabalho, sem parar de sorrir. O murmrio, os gritos, as conversas
entrecruzavam-se. A nica ilha de silncio estava ao meu lado, nas
pessoas do rapazinho e da me, que olhavam um para o outro.
Pouco a pouco, os rabes foram saindo: Logo que o primeiro saiu,
quase todos se calaram. A velhinha aproximou-se das grades e, ao
mesmo tempo, um guarda fez sinal ao filho. Este disse: "Adeus,
me", e ela passou a mo por entre as grades para lhe fazer uma
pequena carcia, lenta e prolongada.
  A velhinha saiu, e entrou um homem de chapu na mo, que
lhe t o m o u o l u g a r : I n t r o d u z i r a m u m n o v o p r i s i o n e i r o e
estes comearam a falar animadamente, mas a meia voz, porque a
sala estava agora silenciosa. Vieram buscar o meu vizinho da direita
e a mulher disse-lhe sem baixar de tom, como se no houvesse
notado que j no era preciso gritar: "Trata-te bem e toma cuidado".
Depois chegou a minha vez. Maria atirou-me um beijo de longe.
Voltei-me antes de sair. Estava imvel, a cara esmagada contra o
gradeamento, com o mesmo sorriso forado e crispado.
   Foi pouco depois que ela me escreveu. E foi a partir
desse momento que comearam as coisas de que nunca gostei de
falar.
De todos os modos, no vale a pena exagerar, e o certo  que me
custou menos do que a muitos outros. No incio da minha deteno,
no entanto, o mais duro, foi virem-me  cabea pensamentos de
homem livre. Por exemplo, sentia de repente desejo de estar numa
praia e de correr para o mar. Imaginando o barulho das primeiras
ondas sob as plantas dos ps, a entrada do corpo na gua, a
libertao que era para mim o banho de mar, sentia de repente at
que ponto as paredes da priso me cercavam. Mas isto durou apenas
alguns meses.
Depois, passei a ter unicamente pensamentos de prisioneiro.
Aguardava o passeio quotidiano no ptio ou ento a visita
do advogado. No resto do tempo, passava menos mal.
                                          52
   Nessa altura pensei muitas vezes que, se me obrigassem a viver
dentro de um tronco seco de rvore, sem outra ocupao, alm de
olhar a flor do cu por cima da minha cabea, ter-me-ia habituado
pouco a pouco. Observaria a passagem das aves ou os encontros
entre as nuvens, tal como aqui observava as extraordinrias
gravatas do advogado e como, num outro mundo, esperava at
sbado para apertar nos meus braos o corpo de Maria. Ora a
verdade, afinal de contas,  que eu no estava dentro de um tronco
de rvore. Havia pessoas mais infelizes do que eu. Acabamos por
nos habituar a tudo, gostava a minha me de dizer..
  Geralmente eu no ia to longe, alis. Os primeiros meses foram
difceis. Mas justamente o esforo que fui obrigado a fazer ajudou-
me a pass-los. Atormentava-me, por exemplo, o desejo de uma
m u l h e r . E r a n a t u r a l , e u e r a u m r a p a z n o v o . N  o pensava
especialmente em Maria. Mas pensava tanto numa mulher, nas
mulheres, em todas as que tinha conhecido um dia, em todas as
circunstncias em que as amara, - que a cela ficava cheia de todas
essas caras femininas e se povoava com todos os meus desejos. Isto
desequilibrava-me, de certo modo. Mas por outro lado, fazia passar
o tempo. Acabara por conquistar a simpatia do guarda que,  hora
das refeies, acompanhava o moo da cozinha. O primeiro que me
falou de mulheres, foi ele. Disse que era a primeira coisa de que os
outros se queixavam.
Redargi q u e e r a c o m o o s o u t r o s e q u e a c h a v a i n j u s t o
este tratamento. "Mas  precisamente para isso, disse ele, que
os prendem. - Para isso? - Pois claro, a liberdade  isso mesmo.
A v o c  s , p r i v a m -n o s d a l i b e r d a d e . N u n c a m e l e m b r a r a
de semelhante coisa. Aprovei-o:  verdade, disse eu, onde estaria
ento o castigo? - Sim, V-se que voc compreende as coisas. Os
outros no compreendem. Mas acabam por resolver o problema de
qualquer maneira. O guarda foi-se embora. No dia seguinte, eu era
como os outros. Houve tambm o caso dos cigarros. Quando entrei
para a priso, tiraram-me o cinto, os atacadores dos sapatos, a
gravata e tudo quanto trazia nas algibeiras, especialmente os

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cigarros. Uma vez na minha cela, pedi que mos devolvessem. Mas
responderam-me que era proibido.
  Os primeiros dias foram terrveis. Foi talvez isso o que mais me
abateu. Chupava pedacinhos de madeira, que arrancava das tbuas
da cama. Uma nusea permanente acompanhava-me durante o dia
inteiro. No percebia por que razo me privavam de coisas inocentes
como os cigarros, que no faziam mal a ningum. Mais tarde,
compreendi que tambm pertenciam a o c a s t i g o . M a s
nesse momento, habituara-me j a deixar de fumar e deixara de ser
um castigo.
  Aparte estes aborrecimentos, no me sentia muito infeliz.
Todo o problema, repito-o, estava em matar o tempo. Por ltimo,
acabei por j no me massar, a partir do instante em que aprendi a
recordar. Punha-m e  s v e z e s a p e n s a r n o m e u quarto e, em
i m a g i n a   o , p a r t i a d e u m c a n t o e d a v a a v o l t a a o quarto,
enumerando mentalmente tudo o que encontrava pelo caminho. Ao
princpio, isto durava pouco. Mas, cada vez que recomeava, ia
durando mais, pois lembrava-me de cada mvel e, para cada mvel,
de cada objeto que l havia e, para cada objeto, de todos os
pormenores e, para os prprios pormenores, de uma incrustao, de
uma racha, de um bordo quebrado, da cor que tinham, ou da
qualidade de que eram feitos. Tentava ao mesmo tempo no perder
o fio a este inventrio e fazer uma enumerao completa. De tal
forma que, ao fim de algumas semanas, passava horas, s a
catalogar tudo o que havia no meu quarto. Assim, quanto mais
pensava, mais coisas esquecidas ia tirando da memria. Compreendi
ento que um homem que houvesse vivido um nico dia, poderia
sem custo passar cem anos numa priso. Teria recordaes
suficientes para no se massar. De certo modo , isto era uma
vantagem.
   Havia tambm o sono. No comeo dormia mal de noite e de
dia, nunca. Pouco a pouco, as noites melhoraram e consegui
tambm dormir de dia. Posso dizer que, nos ltimos meses,
dormia dezesseis a dezoito horas por dia. Restavam-me seis horas

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a matar, com as refeies, as necessidades naturais, as recordaes
e a histria do Tchecoslovaco.
  Entre a enxerga e as tbuas da cama, eu encontrara, com efeito,
um velho bocado de jornal, amarelecido e transparente, quase
colado ao pano. Relatava um acontecimento cujo incio faltava, mas
que devia ter sucedido na Tchecoslovquia. Um homem partira de
uma aldeia para fazer fortuna.
 Ao fim de vinte e cinco anos, rico, regressara casado e com
um filho. A me dele, juntamente com a irm, tinham uma
estalagem na aldeia. Para lhes fazer uma surpresa, deixara a mulher
e o filho noutra estalagem e fora visitar a me, que no
o reconheceu. Por brincadeira, tivera a idi a d e s e i n s t a l a r
num quarto como hspede. Mostrara o dinheiro que trazia. De
noite, a me e a irm tinham-no assassinado  martelada e atirado
o corpo para o rio. No dia seguinte de manh, a mulher
do desgraado viera  estalagem e revelara, sem saber, a identidade
do viajante. A me enforcara-se. A irm atirara-se a um poo. Devo
t e r l i d o esta histria milhares de vezes. Por u m l a d o , e r a
inverossmil. Por outro lado, era natural. De todos os modos, achava
que o viajante merecera at certo ponto a sua sorte e que nunca se
deve brincar com estas coisas.
  E assim, com as horas de sono, as recordaes, a leitura do meu
jornal e a alternncia da luz e da sombra, o tempo foi passando.
   Tinha lido que na priso se perde a noo do tempo. Mas
para mim, isto no fazia sentido. No compreendera ainda at
que ponto os dias podiam ser ao mesmo tempo curtos e longos.
Longos para viver, sem dvida, mas de tal modo distendidos, que
acabavam por se sobrepor uns aos outros e por perder o nome. As
palavras ontem ou amanh eram as nicas que conservavam
sentido.
   Q u a n d o , u m d i a , o g u a r d a m e d i s s e q u e e s t a v a preso h
cinco meses, acreditei, mas no compreendi. Para mim era sempre
o mesmo dia, que caa na minha cela, e era sempre a mesma tarefa,
que eu perseguia sem cessar. Nesse dia, depois do guarda ter sado,
olhei-me ao espelho na bacia de esmalte.
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Pareceu-m e q u e a m i n h a c a r a f i c a v a s  r i a , m e s m o q u a n d o
tentava sorrir. Agitei-a d i a n t e d e m i m . S o r r i , m a s a i m a g e m
conservou o mesmo ar severo e triste. O dia acabava e era a hora de
que no quero falar, a hora sem nome, em que os rudos da
noite s u b i a m d e t o d o s o s a n d a r e s d a p r i s  o , n u m c o r t e j o
de silncios. Aproximei-me da clarabia e,  ltima luz do fim
da t a r d e , c o n t e m p l e i u m a v e z m a i s a m i n h a i m a g e m .
Continuava sria, o que no era de admirar, pois nesse instante,
tambm eu estava srio. Mas ao mesmo tempo, e pela primeira vez,
ouvi distintamente o som da minha voz.
 Reconhecia-a p o r a q u e l a q u e r e s s o a v a h  t a n t o s d i a s a o s
meus ouvidos e compreendi que, durante este tempo, falara
sozinho em voz alta. Lembrei-me ento do que dizia a enfermeira
no e n t e r r o d a m  e . N  o , n  o h a v i a s a  d a p o s s  v e l , e
ningum, ningum pode imaginar o que so as noites nas prises.
     No fundo, um Vero depressa substituiu outro Vero. Sabia que,
com a chegada dos primeiros calores, surgiria qualquer coisa de
novo.
  O meu caso estava inscrito na ltima sesso do tribunal e esta
sesso terminaria em fins de Junho. Os debates iniciaram-se num
dia de sol.
  O meu advogado assegurara-me que no durariam mais do
que dois ou trs dias "Alis, acrescentara, "O caso ser despachado
rapidamente, porque no  o mais importante da sesso. Logo a
seguir, ser julgado um parricida".
  Vieram-m e b u s c a r  s s e t e e m e i a d a m a n h  , e o c a r r o
celular levou-me ao tribunal.
Os dois polcias mandaram-me entrar para uma salinha sombria.
Aguardamos, sentados ao p de uma porta, por detrs da qual
se ouviam vozes, chamamentos, barulhos de cadeiras, numa
confuso de rudos que me recordou essas festas de bairro em
que, depois do concerto, se organiza a sala para a dana. Os polcias
disseram-me que tnhamos que esperar pelos juizes e um deles
ofereceu-me um cigarro, que recusei. Perguntou-me, pouco depois,

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se estava com medo. Respondi que no. E mesmo, sob um certo
aspecto, interessava-me observar um julgamento.
Nunca tivera ocasio para ver nenhum: "Sim, disse o
segundo polcia, mas acabamos por nos cansar".
  No muito tempo depois, uma campainha retiniu na sala
onde estvamos. Tiraram-m e a s a l g e m a s . A b r i r a m a p o r t a
e introduziram-m e n o p e q u e n o q u a d r a d o d o s r  u s . A s a l a
estava cheia a abarrotar. Apesar das persianas, o sol infiltrava-
se aqui e ali e o ar estava j quentssimo. Tinham deixado os vidros
fechados. Sentei-me e os polcias puseram-se um de cada lado da
cadeira. Foi nesse momento que, diante de mim, distingui uma fila
de caras. Todas me olhavam: percebi que eram os membros do jri.
Mas no sou capaz de dizer o que os distinguia uns dos outros. Tive
apenas uma impresso: eu estava no banco de um eltrico e todos
estes passageiros annimos espiavam o recm-chegado para lhe
observar os ridculos. Sei perfeitamente que esta idia era parva
pois aqui no era o ridculo que eles procuravam, era o crime.
 Porm a diferena entre as duas coisas no se me afigurava muito
grande e, de qualquer modo, foi a idia que me veio  cabea.
  Estava um p o u c o a t o r d o a d o , p o r t a n t a g e n t e a m o n t o a d a
numa s a l a . V o l t e i a o l h a r p a r a o j  r i e n  o c o n s e g u i
distinguir especialmente nenhuma fisionomia. Parece-me bem que,
ao princpio, no tinha percebido que toda esta gente estava
aqui para me ver. Geralmente, as pessoas no se interessavam
pela m i n h a p e s s o a . T i v e q u e r e a l i z a r u m e s f o r  o , p a r a
compreender que a causa de toda esta agitao era eu. Disse ao
polcia:
"Que quantidade de gente!" Respondeu-me que era por causa
dos jornais e mostrou-me um grupo que estava em volta de uma
mesa, por debaixo do banco do jri. Disse: "Ali esto eles".
Perguntei: "Quem?" e ele repetiu: "Os jornais".
   Conhecia um dos jornalistas, que nesse momento o viu e que se
dirigiu em nossa dire  o . E r a u m h o m e m j  d e c e r t a
idade, simptico, com uma cara vincada. Apertou calorosamente a
mo do polcia. Notei nesse instante que toda a gente se interpelava
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e conversava, como num clube em que se gosta de encontrar
pessoas do mesmo meio. Foi assim que interpretei uma impresso
bizarra de estar a mais, de ser como que um intruso.
No entanto, o jornalista falou-me com um ar sorridente. Disse que
esperava que tudo corresse bem, para mim. Agradeci-lhe e ele
acrescentou: "Sabe, tivemos que "fazer" um pouco o seu caso. O
Vero  uma poca morta, para os jornais. As nicas histrias que
valiam alguma coisa, eram a sua e a do parricida". Mostrou-me em
seguida, no grupo que acabara de deixar, um homenzinho gordo,
com uns grandes culos de aros negros. Disse-me que era o enviado
especial de um jornal de Paris: "No veio, alis, por sua causa. Mas
como est e n c a r r e g a d o d e f a z e r u m a r e p o r t a g e m s o b r e o
parricida, pediram-lhe para se ocupar tambm do seu caso". Estive
quase para lhe agradecer, mas pensei que seria ridculo. Fez-me
com a m  o u m c o r d i a l g e s t o d e despedida e deixou-nos.
Esperamos ainda alguns minutos.
  Por fim chegou o meu advogado, com o traje da ocasio, rodeado
de muitos outros colegas. Dirigiu-se aos jornalistas e apertou vrias
mos. Gracejaram, riram e tinham um ar perfeitamente  vontade
at que tocou a campainha. Foram todos ocupar os seus lugares. O
meu advogado veio ter comigo, apertou-me a mo e aconselhou-me
a responder com brevidade s perguntas que me fizessem, a no
tomar iniciativas e, quanto ao resto, a ter confiana nele.
  Ouvi,  minha esquerda, o barulho de uma cadeira arrastada e vi
um homem alto e magro, vestido de encarnado, com monculo, que
se sentava dobrando cuidadosamente a toga. Era o procurador. Um
oficial de justia veio anunciar os juizes. Ao mesmo tempo, dois
grandes ventiladores comearam a girar. Os trs juizes, dois de
preto e o terceiro de vermelho, entraram com as pastas do processo
e dirigiram-se muito depressa para a tribuna que dominava a sala. O
homem da toga vermelha sentou-se na cadeira do meio, colocou a
gorra em frente dele,
 Limpou o crnio sem cabelos com um leno e declarou que
estava aberta a sesso.

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  Os jornalistas tinham j as canetas na mo. Tinham todos
o mesmo ar indiferente e um pouco trocista. Porm um deles, muito
mais novo do que os outros, com um fato de flanela cinzenta e uma
gravata azul, deixara a caneta em cima da mesa e fitava-me. Na sua
cara um pouco assimtrica, eu no via seno os olhos, muito claros,
que me examinavam atentamente, sem nada exprimir de definvel. E
senti a estranha impresso de estar a ser examinado, no pelo que
parecia, mas pelo que era realmente. Foi talvez por isso, e tambm
porque no conhecia os hbitos dos tribunais, que no compreendi l
muito bem o que depois se passou, a tiragem  sorte dos jurados,
as perguntas feitas pelo presidente ao advogado, ao procurador e ao
jri (de cada vez, as caras dos membros do jri voltavam-se ao
mesmo tempo para a tribuna dos juizes), uma rpida leitura do ato
de acusao, onde reconheci nomes de lugares e de pessoas e novas
perguntas, feitas ao meu advogado.
  Mas o presidente disse que ia proceder  chamada
das testemunhas. O b e d e l l e u n o m e s q u e m e despertaram a
ateno.
Do seio deste pblico informe, vi que surgiam, um a um, para em
seguida desaparecerem por uma porta lateral, o velho Toms Perez,
Raimundo, Masson, Salamano e Maria. Esta fez -m e u m sinal
ansioso. Ainda no desaparecera a surpresa de no os ter visto mais
cedo, quando a ltima das testemunhas, o Celeste, se levantou.
Reconheci ao lado dele a mulherzinha do restaurante, com o seu
casaco e o seu ar exato e decidido.
Mas no tive tempo de pensar, pois o presidente tomou a palavra.
Disse que os verdadeiros debates iam principiar e que julgava intil
recomendar calma ao pblico.
 Na sua opinio, estava ali para dirigir imparcialmente os debates de
um caso que queria considerar com toda a objetividade. A sentena
dada pelo jri seria tomada com esprito de justia e, se fosse
preciso, mandaria evacuar a sala ao mnimo incidente.
  O c a l o r a u m e n t a v a e r e p a r e i q u e , n a s ala, vrias pessoas
se abanavam com jornais. Isto provocava um barulho contnuo
de papel amarrotado. O presidente fez um sinal e o bedel trouxe trs
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leques de palha entranada que os trs juizes
comearam imediatamente a utilizar.
  O meu interrogatrio comeou quase imediatamente. O presidente
fez-me as perguntas com um ar calmo e mesmo, pareceu-me, com
um fio de cordialidade: Obrigaram-me outra vez a dizer a minha
identidade e, apesar de isto j me estar a aborrecer, pensei que era
no fundo natural, pois seria muito srio julgar um homem por outro.
Em seguida o presidente comeou a descrever o que eu tinha feito,
interpelando-me de trs em trs frases e perguntando: "Foi assim,
no foi?" De cada vez, seguindo as instrues do meu advogado,
respondi:
"Sim, S r. Presidente". Isto durou muito tempo, pois o presidente
relatava a histria com todos os pormenores.
Durante este tempo todo, os jornalistas escreviam. Eu sentia sobre
mim os olhares do mais novo, assim como da mulher
do restaurante. O banco do eltrico estava todo ele, voltado para o
presidente., Este tossiu, folheou o processo e voltou-se para mim,
no deixando de se abanar.
  Disse-me que ia agora abordar questes aparentemente estranhas
ao meu caso, mas que talvez o tocassem de muito perto. Percebi
que me iam outra vez falar da minha me e senti at que ponto isso
me aborrecia.
 Perguntou-me por que razo a mandara para o asilo. Respondi que
era por que no ganhava o bastante para a ter comigo e para cuidar
dela como devia ser. Perguntou-me se, pessoalmente, sofrera com o
fato e respondi que nem a minha me, nem eu, espervamos j
alguma coisa um do outro, nem, alis, de ningum, e que os dois
nos havamos habituado s nossas novas vidas. O presidente disse
ento que no queria insistir neste ponto e perguntou ao procurador
se tinha alguma pergunta a fazer-me.
  Este estava quase de costas para mim e, sem me olhar, declarou
que, com a autorizao do presidente, gostava de saber se eu
voltara  nascente com a inteno de matar o rabe: "No",
respondi. "Ento, porque estava ele armado e porque regressara
precisamente, quele lugar?" Repliquei que fora o acaso que l me
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levara. E o procurador concluiu, com uma expresso malvola: "Por
agora,  tudo". O que em seguida se passou foi um pouco confuso,
pelo menos para mim. Mas depois de alguns concilibulos, o
presidente declarou a audincia suspensa e adiada at logo  tarde,
para serem ouvidas as testemunhas.
   N  o t i v e t e m p o p a r a p e n s a r . L e v a r a m -me, mandaram-me
entrar para o carro celular e fecharam-me outra vez na minha
cela, onde almocei. Ao cabo de muito pouco tempo, apenas o
bastante para perceber que me sentia cansado, vieram-me buscar,
comeou tudo outra vez de princpio, e dei comigo na mesma
sala, diante das mesmas caras. Simplesmente o calor era muito
maior e, como por milagre, cada um dos jurados, o procurador, o
meu advogado e alguns jornalistas, estavam tambm munidos
de leques de palha. O jovem jornalista e a mulherzinha continuavam
nos mesmos lugares. Mas no se abanavam e continuavam a fitar-
me em silncio.
  Enxuguei o suor que me cobria a cara e s retomei conscincia do
lugar e de mim mesmo, quando ouvi chamar o diretor do asilo.
Perguntaram-lhe se a minha me se queixava de mim e ele disse
que sim, mas que todos os pensionistas tinham um pouco a mania
de se queixar da famlia. O presidente disse-lhe para especificar se
ela me censurava por eu a ter metido no asilo e o diretor respondeu
que sim. Mas desta vez, no acrescentou nada. A uma outra
pergunta, redargi u q u e a m i n h a c a l m a n o d i a d o e nterro o
surpreendera. Perguntaram-lhe o que entendia ele por "calma". O
diretor olhou ento para as pontas dos sapatos e disse que eu no
quisera ver o corpo da minha me, que no chorara uma nica vez e
que partira logo a seguir ao enterro, sem me recolher sequer uns
momentos no cemitrio. Espantara-o u m a o u t r a c o i s a : u m
empregado da Agncia Funerria dissera-lhe que eu no sabia a
idade da m i n h a m  e . H o u v e u n s i n s t a n t e s d e s i l  n c i o e o
presidente perguntou se era de fato a meu respeito que ele acabara
de falar. Como o diretor no compreendesse a pergunta, disse-lhe:
"a lei". Depois o presidente perguntou ao advogado de acusao se
no tinha mais nenhuma pergunta a fazer  testemunha e o
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procurador respondeu: "Ah, no, isto j chega!", com uma tal
veemncia e um tal olhar de triunfo na minha direo que, pela
primeira vez h j muitos anos, tive uma vontade estpida de
chorar, porque senti at que ponto toda esta gente me detestava.
  Depois de ter perguntado ao jri e ao meu advogado se queriam
fazer algumas perguntas, o presidente chamou o porteiro do asilo.
Para este, como para os outros, repetiu-se o mesmo cerimonial.
   A o a p a r e c e r , o p o r t e i r o o l h o u -m e e d e p o i s a f a s t o u o s
olhos, respondendo s perguntas que lhe dirigiram. Disse que eu
no tinha querido ver a minha me, que tinha fumado, que
tinha dormido e que tinha tomado caf com leite. Senti ento
que qualquer coisa se levantava na sala e compreendi pela
primeira vez que era culpado. Pediram ao porteiro para repetir
a histria do caf com leite e a do cigarro. O advogado de acusao
olhou-me com um brilho irnico no olhar. Nesse momento, o meu
advogado perguntou ao porteiro se no tinha fumado tambm um
cigarro comigo. Mas o procurador reagiu violentamente contra esta
pergunta: "Quem  aqui o criminoso e que mtodos so estes, que
consistem em denegrir as testemunhas de acusao para lhes
diminuir depoimentos que nem p o r i s s o f i c a m m e n o s
esmagadores?!"
  Apesar de tudo, o presidente disse ao porteiro para responder 
pergunta. O velho replicou, com um ar embaraado:
"Sei que no andei bem, mas no ousei recusar o cigarro que este
senhor me ofereceu". Em ltima instncia, perguntaram-me se
queria acrescentar alguma coisa. "Nada", respondi, "a no ser que a
testemunha fala verdade.  certo que Lhe ofereci um cigarro". O
porteiro olhou-me um pouco espantado e com uma espcie de
gratido. Hesitou e em seguida disse que fora ele, que me oferecera
caf com leite. O meu advogado triunfou ruidosamente e declarou
que os jurados saberiam formar a sua opinio. Mas o procurador,
gritando mais alto, disse: "Sim. Os senhores jurados sabero formar
a sua opinio. E no deixaro de concluir que um estranho podia
oferecer caf, mas que um filho devia recus-lo diante do corpo
daquela que o deu  luz". O porteiro regressou ao seu lugar.
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  Quando chegou a vez de Toms Perez, um bedel teve que o ajudar
a ocupar o lugar das testemunhas. Perez disse que conhecera,
sobretudo, a minha me e que a mim, s me vira uma nica vez, no
dia do enterro. Perguntaram-lhe o que tinha eu feito nesse dia e ele
respondeu: "No sei se compreendem, mas eu estava com um
grande desgosto. Por isso, no vi nada. O desgosto impedia-me de
ver. Porque para mim, era um grande desgosto. Cheguei mesmo a
desmaiar. Por isso, no pude ver este senhor". O advogado de
acusao perguntou-l h e s e , a o menos, me vira chorar. Perez
respondeu que no.
 O procurador disse por sua vez: "Os senhores jurados
sabero f o r m a r a s u a o p i n i  o " . M a s n e s t a a l t u r a , o m e u
advogado zangou-se. Perguntou ao velho Perez, num tom que se
me afigurou exagerado "se tinha visto que eu no estava a chorar".
P e r e z d i s s e : " N  o " . O p  b l i c o r i u -s e . E o m e u advogado,
arregaando uma das mangas, disse num tom peremptrio: "Eis
aqui a imagem deste processo. Tudo  verdade e nada  verdade". O
procurador mostrava uma fisionomia fechada e rabiscava com o lpis
nos papis que tinha em frente.
  Aps cinco minutos de suspenso, durante os quais o
meu advogado me disse que tudo corria pelo melhor, foi ouvido
o Celeste, que era citado pela defesa: A defesa, era eu.
  Celeste deitava, de tempos a tempos, olhares na minha direo e
rodava o panam nas mos. Trazia o fato novo que punha aos
domingos, quando ia comigo s corridas de cavalos.
Mas julgo que no conseguira pr o colarinho, pois apenas um boto
de metal lhe conservava a camisa fechada.
Perguntaram-lhe se eu era seu cliente e ele respondeu: "Sim, mas
era tambm meu amigo", o que pensava de mim, e ele respondeu
que eu era um homem, o que queria dizer com isso, e ele declarou
que toda a gente sabia o que isso queria dizer, se notara que eu era
taciturno, e ele reconheceu apenas que eu no falava por falar. O
advogado de acusao perguntou-lhe se eu pagava regularmente as
minhas despesas. Celeste riu-se e declarou: "Isso era entre mim e
ele". Perguntaram-lhe ainda o que pensava do meu crime. Ps ento
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as duas mos na barra e via-se que preparara qualquer coisa. Disse:
"Para mim, foi uma desgraa. Toda a gente sabe o que  uma
desgraa. Pois bem, na minha opinio, foi uma desgraa". Ia
continuar, mas o presidente disse que estava bem e que muito lhe
agradecia.
Celeste ficou um pouco atrapalhado. Mas declarou que queria dizer
mais coisas. Pediram-lhe para ser breve. Voltou a repetir que era
uma desgraa. E o presidente disse -lhe: "Est b e m , estamos
entendidos. Mas ns estamos aqui justamente para julgar as
desgraas deste gnero. Muito obrigado". Como se tivesse chegado
ao fim da sua cincia e da sua boa vontade, Celeste voltou-se ento
para mim. Parecia-me que tinha os olhos brilhantes e os lbios
trmulos. Tinha o ar de perguntar a si mesmo o que poderia ainda
fazer.
 Quanto a mim, no disse nada, no esbocei um nico gesto, mas foi
a primeira vez na minha vida que tive vontade de beijar um homem.
O presidente disse-Lhe que se podia ir embora. Celeste foi sentar-se
no seu lugar. Durante o resto da audincia ali se deixou ficar, um
pouco inclinado para a frente, os cotovelos nos joelhos, o panam
nas mos, escutando tudo o que se dizia.
  Chegou a vez de Maria. Pusera um chapu e estava muito bonita.
Mas gostava mais dela com os cabelos soltos. Do stio onde estava,
eu adivinhava-lhe o peso ligeiro dos seios e reconhecia-lhe o lbio
inferior, sempre um pouco inchado.
Parecia muito nervosa. Perguntaram-Lhe imediatamente h
quanto tempo me conhecia. Indicou a poca em que trabalhava l
no escritrio. O presidente quis saber que relaes tinha comigo.
Disse que era minha amiga. A uma outra pergunta, respondeu que,
de fato, fazia inteno de casar comigo. O procurador, que folheava
o processo, perguntou-lhe bruscamente quando comeara a nossa
ligao. Maria indicou a data. O procurador observou com um ar
indiferente que lhe parecia ser apenas um dia depois da morte da
minha me. Depois disse, com uma certa ironia, que no queria
insistir numa situao delicada, que compreendia perfeitamente os
escrpulos de Maria (e aqui o tom da sua voz endureceu), mas que o
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seu dever o impelia a elevar-se acima das convenincias. Pediu-Lhe,
por conseguinte, para resumir o d i a e m q u e s e d e r a o n o s s o
encontro. Maria no queria falar, mas, em face da insistncia do
procurador, contou o nosso banho, a nossa ida ao cinema e o
encontro em minha casa. O advogado de acusao disse que, em
conseqncia das declaraes de Maria durante a instruo do
processo, consultara os programas dessa data. Acrescentou que a
prpria testemunha diria que filme tinham ido ver. Com uma
voz trm u l a , M a r i a i n d i c o u q u e e r a u m f i l m e d e F e r n a n d e l .
Quando e l a a c a b o u , o s i l  n c i o n a s a l a e r a c o m p l e t o . O
procurador levantou-se ento, muito srio e com uma voz que me
pareceu autenticamente emocionada apontou o dedo para mim e
articulou lentamente: "Meus senhores, um dia depois da morte da
sua me, este homem tomava banhos de mar, iniciava relaes com
uma amante e ia rir s gargalhadas, num filme cmico.
 N  o t e n h o n a d a a a c r e s c e n t a r " . S e n t o u -s e , n o m e i o d o
silncio geral. De repente Maria comeou a soluar, exclamou que
no e r a i s s o , q u e a o b r i g a v a m a d i z e r o c o n t r  r i o d o q u e
pensava, que me conhecia muito bem e que eu no tinha feito nada
de mal. Mas, a um sinal do presidente, o bedel levou-a e a audincia
prosseguiu.
  Depois disto, mal ouviram Masson declarar que eu era uma pessoa
honesta, "direi mesmo mais, uma excelente pessoa". Mal escutaram
Salamano, quando recordou que eu fora muito bom para o co dele
e quando respondeu a uma pergunta a meu respeito, dizendo que eu
metera a minha me no asilo porque j no tinha nada a dizer-Lhe.
" preciso compreend-lo, dizia Salamano,  preciso compreend-
lo". Mas ningum parecia compreender-me.
Levaram-no.
  Chegou depois a vez de Raimundo, que era a ltima testemunha.
Raimundo fez-me um pequeno sinal e disse imediatamente que eu
estava inocente. Mas o presidente lembrou-lhe que no lhe pediam
apreciaes, pediam-lhe fatos.
Convidou-o a esperar as perguntas e depois responder.
Pediram-lhe que especificasse as suas relaes com a vtima:
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  Raimundo aproveitou para dizer que era a ele, que o
rabe assassinado odiava, d e s d e q u e l h e e s b o f e t e a r a a i r m.
O presidente perguntou ento se a vtima no tinha nenhuma
razo para me odiar. Raimundo disse que a minha presena na
praia fora um mero acaso. O procurador perguntou-lhe ento porque
 que, se assim era, a carta que estava na origem do drama,
fora escrita para mim. Raimundo respondeu que fora tambm um
acaso.
O procurador retorquiu que o acaso tinha costas largas,
nesta h i s t  r i a t o d a . Q u i s s a b e r s e f o r a p o r a c a s o q u e e u
no interviera quando Raimundo esbofeteara a amante, por acaso
que servira de testemunha no comissariado, por acaso ainda que
as m i n h a s d e c l a r a   e s n e s s a a l t u r a s e t i n h a m r e v e l a d o
sem fundamento srio. Para acabar, perguntou a Raimundo o
que fazia na vida e, como este respondesse que era "lojista"
o advogado de acusao declarou aos jurados que a
testemunha exercia uma profisso mais do que duvidosa. Eu era
seu cmplice e amigo. Tratava-se de um drama crapuloso da
pior espcie, agravado pelo fato de estarmos em presena de
um m o n s t r o m o r a l . R a i m u n d o q u i s d e f e n d e r -s e e o m e u
advogado protestou, mas disseram-lhes que deixassem o procurador
acabar o q u e e s t a v a a d i z e r . E s t e d i s s e : " P o u c o t e n h o a
acrescentar".
O acusado era seu amigo?"Perguntou a Raimundo. "Sim, respondeu
este, era meu amigo". O advogado de acusao fez-me ento a
mesma pergunta e eu olhei para Raimundo, que no desviou os
olhos. Respondi: "Sim". O procurador voltou-se ento para o jri e
declarou: "O mesmo homem que, um dia depois da me ter morrido,
se entregava  mais vergonhosa devassido, matou por razes fteis
e para liquidar um inqualificvel caso crapuloso".
  V o l t o u e n t  o a s e n t a r -se . M a s o m e u a d v o g a d o , a
pacincia esgotada, gritou levantando os braos, de tal forma que
as mangas, caindo para trs, descobriram as pregas de uma
camisa engomada: "Enfim, esto a acus-lo de ter assassinado um
homem ou de Lhe ter morrido a me?"
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  O pblico riu-se. Mas o procurador levantou-se outra vez, ajustou a
toga e declarou que era preciso ter a ingenuidade do ilustre defensor
para no sentir que entre as duas ordens de fatos, havia uma
relao profunda, pattica, essencial. "Sim, exclamou ele com fora,
acuso este homem de ter assistido ao enterro da me com um
corao de criminoso".
 Esta declarao parece ter provocado um efeito considervel sobre
o jri e sobre o pblico. O meu advogado encolheu os ombros e
limpou o suor que lhe cobria a testa. Mas ele prprio parecia abalado
e compreendi nesta altura que as coisas no iam muito bem para
mim.
  Em seguida, tudo se passou muito depressa. A audincia
foi suspensa.  sada do tribunal e ao subir para o carro, reconheci
durante breves instantes o cheiro e o calor das tardes de vero. Na
obscuridade da minha priso rolante, reencontrei um a um, no fundo
do meu cansao, todos os rudos familiares de uma cidade que eu
amava e de uma certa hora em que tantas vezes me sentira
contente. O prego dos vendedores de jornais no ar j mais fresco,
os ltimos pssaros no largo, o grito dos vendedores de sanduches,
o queixume dos eltricos nas curvas ngremes da cidade e este
rumor do cu antes da noite tombar sobre o porto, tudo isto
reconstitua aos meus olhos um cego itinerrio que j conhecia
muito antes de entrar para a priso. Sim, era a hora em que, h
muito, muito tempo, eu me sentia contente. O que ento me
aguardava, era sempre um sono ligeiro e sem sonhos. E, no entanto,
alguma c o i s a s e m o d i f i c a r a , p o i s c o m a e x p e c t a t i v a d o d i a
seguinte, foi a minha cela, que reencontrei enfim. Como se os
caminhos familiares traados nas noites de vero pudessem
conduzir, tanto s prises, como aos sonos inocentes.


  Mesmo do lugar dos rus,  sempre interessante ouvir falar de ns
mesmos. Durante os arrazoados do procurador e do meu advogado,
posso dizer que se falou muito de mim e talvez at mais de mim,
q u e d o m e u c r i m e . E r a m , a l i  s , a s s i m t  o diferentes, estes
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discursos? O advogado levantava os braos e pleiteava culpado, mas
com atenuantes. O procurador estendia as mos e pleiteava culpado,
mas sem atenuantes. No entanto, uma coisa me incomodava
vagamente. Apesar das minhas preocupaes, apetecia-me por
vezes intervir e o meu advogado dizia-me ento: "Cale-se, para seu
bem  melhor que se cale".
 De algum modo, tinham todo o ar de tratar deste caso  margem da
minha pessoa. Tudo se passava sem a minha interveno.
Jogava-s e a m i n h a s o r t e s e m q u e m e p e d i s s e m a o p i n i  o .
De tempos a tempos, tinha vontade de interromper toda a gente
e de dizer: "Mas quem  afinal o acusado?  importante ser
o acusado. E tenho coisas a dizer!" Mas, pensando bem, no
tinha nada a dizer. Devo reconhecer, alis, que o interesse que
se tem em ouvir as pessoas, no dura muito tempo. Por exemplo,
o discurso do procurador depressa me fatigou. Apenas
me i m p r e s s i o n a r a m o u d e s p e r t a r a m a a t e n   o a l g u n s
fragmentos, gestos ou tiradas inteiras, mas desligadas do conjunto.
  O fundo do seu pensamento, se bem o compreendi,  que o
meu crime fora premeditado. Pelo menos, tentou demonstr-lo.
Como e l e p r  p r i o d i z i a : " D a r e i a p r o v a d o q u e a f i r m o , ,
meus senhores, e d-la-ei duplament e . S o b a c r u a c l a r i d a d e
dos fatos em primeiro lugar e em seguida sob a iluminao
sombria q u e m e s e r  f o r n e c i d a p e l o p erfil psicolgico desta
alma criminosa". Resumiu os fatos a partir da mo rte da minha
me, Relembrou a minha insensibilidade, a minha ignorncia da
idade dela, o meu banho de mar, no dia seguinte, com uma mulher,
o cinema, Fernandel e por fim o caso com Maria. Levei tempo
a compreender nesse momento, porque dizia "a amante" e para
mim, ela chamava-se Maria. Chegou, em seguida,  histria
de R a i m u n d o . A c h e i q u e t i n h a u m a m a n e i r a d e v e r a s
coisas bastante clara. O que dizia no deixava de ser plausvel.
Eu escrevera a carta de combinao com Raimundo para atrair
a amante deste e a entregar aos maus tratos de um homem
"de moralidade duvidosa". Provocara, na praia, os adversrios
de Raimundo. Este ficara ferido. Eu pedira-lhe o revlver.
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Voltara atrs para me servir dele, sozinho. Tal como projetara, dera
depois cabo do rabe. Disparara uma vez.
Esperara. E, "para ter a certeza de que o trabalho ficara bem feito",
disparara mais quatro tiros, calmamente, conscientemente, pela
certa. "E aqui est, meus senhores, disse o advogado de acusao.
Acabo de traar o fio dos acontecimentos que levaram este homem a
matar com pleno conhecimento de causa. Insisto neste ponto. Pois
no se trata de um crime banal, de um ato impensado que poderia
ser atenuado por certas circunstncias.

 Este homem, meus senhores,  um homem inteligente. Ouviram-
no f a l a r , n  o  v e r d a d e ? S a b e r e s p o n d e r . C o n h e c e o v a l o r
das palavras. E no se pode dizer que tenha agido sem dar pelo
que estava a fazer".
  Eu ouvia, e percebia que me consideravam inteligente. Mas no
compreendia por que motivo as qualidades de um homem vulgar
podiam erguer-se esmagadoramente contra um culpado. Era isto,
pelo menos, o que mais me impressionava e deixei de ouvir o
procurador at ao momento em que o ouvi dizer:
"Podemos di z e r , e m s u a d e f e s a , q u e e s t e h o m e m e x p r i m i u
algum arrependimento? Nunca, meus senhores. Nem uma s vez
no decurso da instruo do processo, pareceu emocionado com o
seu crime abominvel". Nesse momento voltou-s e p a r a m i m
e apontou-me com o dedo, continuando a fulminar-me, sem que
na realidade eu compreendesse muito bem porqu. No posso
deixar de reconhecer, sem dvida, que ele tinha razo. No
me arrependia muito do que tinha feito. Mas espantava -me
uma a t i t u d e t  o e n c a r n i  a d a . G o s t a r i a d e l h e p o d e r
explicar cordial m e n t e , q u a s e c o m a f e i   o , q u e n u n c a m e
arrependera verdadeiramente de nada. Estava sempre dominado
pelo que ia acontecer, por hoje ou por amanh. Mas evidentemente,
no estado a que me haviam levado, no podia falar a ningum
neste tom. No tinha o direito de me mostrar afetuoso, de ter
boa v o n t a d e . E t e n t e i c o n t i n u a r a e s c u t a r , p o i s o
procurador comeou a falar da minha alma.
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  Dizia que se debruara sobre ela e que nada encontrara, senhores
jurados. Dizia que, em boa verdade, eu no tinha alma e que nada
de humano, nem um nico dos princpios morais que existem no
corao dos homens, me era acessvel. "No poderamos sem dvida
censurar-lhe uma coisa destas, acrescentou. O que ele no teria
possibilidades de adquirir, no podemos queixar-nos de que Lhe
falte. Mas no que se refere a este caso, a verdade negativa da
tolerncia deve transformar-se na virtude menos fcil, mas mais
elevada, da justia. Sobretudo quando o vazio de um corao como
o que descobrimos neste homem se torna num abismo onde a
sociedade pode sucumbir". Foi ento que comeou a falar outra vez
da minha atitude para com a me.
 Repetiu o que j dissera durante os debates. Mas falou muito mais
longamente nisto, do que a respeito do crime, to longamente que,
a certa altura, passei a sentir apenas o calor do dia. At ao instante,
pelo menos, em que o advogado de acusao se deteve e, depois de
um momento de silncio, continuou numa voz baixa e
compenetrada: "Este mesmo tribunal, meus senhores, vai julgar
amanh o mais abominvel dos crimes:
O assassnio de um pai". Na opinio dele, a imaginao
recuava diante deste atroz atentado. Ousava esperar que a justia
dos homens saberia castigar sem piedade. Mas no receava
afirmar que o horror que esse crime Lhe inspirava quase cedia
diante da minha insensibilidade. Ainda na opinio dele, um homem
que matava moralmente a me devia ser afastado da sociedade
dos homens, exat a m e n t e c o m o a q u e l e q u e l e v a n t a v a u m a
mo criminosa contra o autor dos seus dias. Em todos os casos,
o prime i r o p r e p a r a v a o s atos do segundo, anunciava -o s d e
algum m o d o e l e g i t i m a v a -o s . " E s t o u p e r s u a d i d o , m e u s
senhores, acrescentou elevando a voz, de que no acharo o
meu pensamento excessivamente audacioso, se lhes disser que
o homem ali sentado naquele banco  igualmente culpado do
crime que o tribunal vai julgar amanh.
 "E como tal dever ser castigado". Aqui, o procurador enxugou
a cara brilhante de suor. Disse por fim que o seu dever era doloroso,
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mas que o cumpriria firmemente. Declarou que eu nada tinha a fazer
numa sociedade cujas regras mais essenciais desconhecia e que eu
n  o p o d i a a p e l a r p a r a o corao dos homens, cujas reaes
elementares ignorava. "Peo-vos a cabea deste homem, disse, e 
sem escrpulos que vos dirijo este pedido. Pois no decurso da minha
longa carreira, tem-me acontecido pedir vrias penas de morte, mas
nunca como hoje, eu senti este penoso dever to compensado,
equilibrado, iluminado pela conscincia de um imperativo sagrado e
pelo horror que tenho a esta fisionomia humana onde nada leio
que no seja monstruoso". Quando o procurador se sentou, houve
uns longos momentos de silncio. Quanto a mim, sentia-me
atordoado pelo calor e pelo espanto. O presidente tossiu um pouco
e , e m v o z n  o m u i t o a l t a , p e r g u n t o u -m e s e e u q u e r i a
acrescentar alguma coisa. Levantei-me e, como tinha vontade de
falar, disse, alis um pouco ao acaso, que no tinha tido inteno
de m a t a r o  r a b e . O p r e s i d e n t e r e s p o n d e u q u e e r a u m a
afirmao, que at aqui no percebia l muito bem o meu sistema
de defesa e que gostaria, antes de ouvir o meu advogado, que
eu especificasse os m o t i v o s q u e i n s p i r a r a m o m e u a t o .
Redargi r a p i d a m e n t e , m i s t u r a n d o u m p o u c o a s p a l a v r a s e
consciente do ridculo, que fora por causa do sol. Houve risos na
sala. O meu advogado encolheu os ombros e, logo a seguir, deram-
Lhe a palavra. Mas ele declarou que era tarde, que precisava
de muito tempo e que pedia o adiamento at logo  tarde. O tribunal
concordou.
   tarde, os grandes ventiladores continuavam a agitar a atmosfera
e s p e s s a d a s a l a , c o m o o s l e q u e s m u l t i c o l o r e s d o s jurados
continuavam a ser abanados na mesma direo. O discurso do meu
advogado parecia no ter fim. Num momento dado, no entanto,
ouvi-o dizer: " certo que matei". Depois prosseguiu no mesmo tom,
dizendo "eu", cada vez que falava de mim. Eu estava muito
admirado. Debrucei-m e p a r a u m d o s polcias e perguntei-Lhe
porqu. Mandou-me calar e, instantes depois, acrescentou: "Todos
os advogados fazem o mesmo". Mas a mim, parecia-me que isso era
afastar-me ainda um pouco mais do caso, reduzir-me a zero e, de
                                           71
um certo ponto de vista, substituir-se  minha pessoa. O certo  que
eu, no fim de contas, estava j muito longe deste tribunal. O meu
advogado, alis, pareceu-m e r i d  c u l o . D e p o i s d e t e r f a l a d o
rapidamente da provocao, ps-se igualmente a falar da minha
alma. Mas creio que tinha muito menos talento do que o procurador.
"Tambm eu, afirmou, me debrucei sobre esta alma, mas
ao c o n t r  r i o d o e m i n e n t e r e p r e s e n t a n t e d o M i n i s t  r i o
Pblico, encontrei alguma coisa e posso dizer que li como num
livro a b e r t o " . L e r a q u e e u e r a u m b o m h o m e m , u m
trabalhador metdico, infatigvel, fiel  casa que me empregava,
amado por todos, participando das misrias dos outros. Para ele,
eu era um filho modelo, que sustentara a me at mais no poder.
Finalmente, esperara que uma casa de recolhimento desse  velha
senhora o conforto que os meus meios no permitiam oferecer-lhe.
"Muito me espanto, acrescentou, que tenham feito tanto barulho em
volta desse asilo. Porque afinal, se fosse preciso dar uma prova da
utilidade e da grandeza destas instituies, teramos que acentuar
que so subvencionadas pelo prprio Estado".
   No falou, porm, no enterro e eu senti que isto era uma lacuna
da defesa. Mas por causa de todas estas extensas frases, de todos
estes dias e horas interminveis durante os quais tanto se tinha
falado da minha alma, tive a impresso que tudo se transformava
como que numa gua incolor que me causava vertigens.
  Para o fim, lembro-me unicamente de que na rua e atravs de todo
o espao das salas e das tribunas, enquanto o meu advogado
continuava a falar, eu ouvia a buzina do vendedor de gelados.
Assaltaram-m e a s r e c o r d a   e s d e u m a v i d a q u e j  n  o me
pertencia, mas onde encontrara as mais pobres e as mais tenazes
das minhas alegrias: odores do vero, do bairro que eu amava, um
certo cu ao anoitecer, o riso e os vestidos de Maria. Tudo quanto
neste lugar eu fazia de intil subiu-me ento  garganta e s tive
uma pressa: acabar depressa com isto e voltar  minha cela, onde ia
poder dormir. Mal ouvi o advogado gritar, para concluir, que os
jurados no quereriam certamente condenar  morte um trabalhador
honesto, perdido p o r u m m i n u t o d e d e s v a r i o , e p e d i r a s
                                            72
circunstncias atenuantes para um crime cujo remorso eterno, o
mais severo dos castigos, eu trazia j comigo. O tribunal suspendeu
a audincia e o advogado sentou-se, com um ar estafado. Mas os
colegas foram nesta altura apertar-lhe a mo.
Ouvi:
  "Esplndido, meu caro". Um deles voltou -s e m e s m o p a r a
mim, como a pedir a minha opinio: "Hem?" Assenti, mas no
era sincero, porque estava extremamente cansado.
  No entanto a hora declinava, l fora, e o calor no era to grande.
A certos barulhos da rua que chegavam at mim, adivinhava j a
doura do fim de tarde. Estvamos ali, todos,  espera. E o que
espervamos todos juntos, na realidade s me dizia respeito a mim.
Voltei a olhar para a sala.
  Estava tudo no mesmo estado do primeiro dia.
  Cruzei com os olhares do jornalista de cinzento e da mulher-
autmato. Isto lembrou-me que, durante todo o processo, no
olhara uma nica vez para Maria. No a esquecera, mas estivera
muito ocupado. Estava entre Celeste e Raimundo.
Fez-me um pequeno sinal, como se dissesse: "Enfim!" e vi surgir um
sorriso, na sua cara ansiosa. Mas sentia-me com o corao fechado,
e nem sequer fui capaz de Lhe corresponder ao sorriso.
   Os juzes regressaram. Leram aos jurados, muito depressa, uma
srie de pontos principais do processo. Ouvi "culpado de crime"...
"Provocao"... "Circunstncias atenuantes". O s jurados saram e
levaram-me para a salinha onde j tinha estado  espera. O meu
advogado veio ter comigo: estava muito eloqente e falou-me com
mais confiana e mais cordialidade do que nunca. Pensava que tudo
correria bem e que me sairia com alguns anos de priso. Perguntei-
lhe se havia probabilidades de derrogao, no caso de uma sentena
desfavorvel. Respondeu que no. A tctica que seguira, fora a de
no indispor o jri.
Explicou-me que no se derroga um processo sem mais nem
menos, por nada! Isto pareceu-me evidente e inclinei-me diante
destas r a z  e s . C o n s i d e r a n d o f r i a m e n t e a c o i s a , e r a
perfeitamente natural. Caso contrrio, haveria uma sobrecarga de
                                        73
papeladas inteis. "De todos os modos, disse-me o meu advogado,
pode-se a p e l a r . M a s e s t o u c o n v e n c i d o d e q u e o d e s f e c h o
ser favorvel".
  Esperamos muito tempo, julgo que bem uns trs quartos de hora:
Ao fim deste tempo, retiniu a campainha. O meu advogado deixou-
me, dizendo: "O presidente do jri vai ler as respostas. S o
mandaro entrar quando a sentena for pronunciada". Ouviram-se
portas a bater. Corriam pessoas por escadas abaixo, no sei se
longe, se perto de onde eu estava.
Depois escutei uma voz surda ler qualquer coisa na sala.
Quando a campainha tocou e que a porta se abriu, subiu at mim o
silncio da sala, o silncio e a singular sensao que experimentei
quando olhei para o jovem jornalista e reparei que pela primeira vez
afastava os olhos de mim. No olhei para o lado de Maria. No tive
tempo, alis, pois o presidente disse-me de um modo estranho que
me cortariam a cabea numa praa pblica em nome do povo
francs. Pareceu-me ento reconhecer o sentimento que lia em
t o d a s a s c a r a s . J u l g o q u e era a considerao. Os polcias
mostravam-se muito amveis comigo. O advogado ps-me a mo
num pulso. J no conseguia pensar. Mas o presidente perguntou se
eu queria declarar alguma coisa. Refleti. Disse: "No". Foi ento que
me levaram.
     Recusei-me, pela terceira vez, a receber o capelo. No tenho
nada a dizer-lhe, no me apetece falar, tenho muito tempo para o
ver. O que neste momento me interessa,  fugir  engrenagem,
saber se o inevitvel pode ter uma sada.
Mudaram-me de cela. Desta, quando me estendo na cama, vejo
o cu, apenas o cu. Os meus dias inteiros, passo-os a olhar na sua
face, o declnio das cores que conduz o dia  noite.
Deitado, ponho as mos debaixo da cabea e espero. J no
sei quantas vezes perguntei a mim prprio se havia exemplos
de c o n d e n a d o s  m o r t e q u e t i v e s s e m e s c a p a d o a o
mecanismo implacvel, desaparecido antes da execuo e fugido ao
cordo de polcias.

                                         74
 Censurava-me por no ter prestado ateno suficiente s histrias
de execues. Devamos interessar-nos sempre por estas questes..
Nunca se sabe o que pode acontecer. Lera, como toda a gente,
r e p o r t a g e n s s o b r e o a s s u n t o . M a s h a v i a c o m certeza livros
especializados, que nunca tivera a curiosidade de consultar. Talvez
a eu pudesse ter achado narrativas de evases. Poderia ter sabido
que, pelo menos num caso, a roda se tinha detido e que, nesta
irresistvel precipitao, o acaso e a sorte, uma nica vez, haviam
desempenhado um papel.
Uma nica vez! Por um lado, creio bem que isto me chegaria. O meu
corao faria o resto. Os jornais falam muitas vezes de uma dvida
para com a sociedade. Para eles, era preciso pag-la. Mas isto no
diz nada  imaginao. O que contaria, seria uma possibilidade de
fuga, um salto para fora do rito implacvel, uma louca corrida, com
todas as probabilidades da esperana. A esperana, possivelmente,
seria ser abatido em plena corrida, por uma bala. Mas, bem vistas as
coisas, nada m e p e r m i t i a e s t e l u x o , t u d o m o p r o i b i a , a
engrenagem reconquistava-me.
  Apesar da minha boa vontade, eu no era capaz de aceitar esta
certeza insolente. Por que afinal de contas, existia uma ridcula
desproporo entre o julgamento que a fundamentara e o seu
imperturbvel desenvolvimento, a partir do instante em que a
sentena fora pronunciada. O fato de a sentena ter sido lida, no s
cinco da tarde, mas s oito horas da noite, o fato de que podia ter
sido outra completamente diferente, de que fora resolvida por
homens que mudam de roupa de baixo e de que fora dada em nome
de uma noo to imprecisa como o povo francs (ou alemo, ou
chins), tudo isto me parecia tirar seriedade a uma deciso to
grave. Era obrigado a reconhecer, no entanto que, a partir do
instante em que fora tomada, os seus efeitos se tornavam to
certos, to srios como a presena desta parede ao longo da qual eu
me estendia.
  Lembrei-m e n e s t e s m o m e n t o s d e u m a h i s t  r i a q u e a
me costumava contar-m e , a r e s p e i t o d o m e u p a i . E u n u n c a
o conhecera. Tudo o q u e s a b i a d e p r e c i s o a r e s p e i t o d e s t e
                                          75
homem, era talvez o que a minha me ento me dizia: fora assistir
 execuo de um assassino. A idia de ir punha-o doente.
 Mas no deixara de ir, e  volta vomitara durante quase todo o dia.
Isto desgostava-me dele. Agora, porm, compreendia-o, a reao
era to natural... Como no percebera eu que no havia nada mais
importante do que uma execuo capital e que, sob um determinado
p o n t o d e v i s t a , e r a m e s m o a  n i c a c o i s a verdadeiramente
interessante para um homem?! Se por acaso sasse da priso, iria
assistir a todas as execues capitais.
Fazia mal, julgo eu, em pensar nesta possibilidade. Pois  idia de
me ver livre uma destas manhs, atrs de um cordo de polcias e
do outro lado,  idia de ser o espectador que veio assistir, uma
onda de alegria envenenada me subia ao corao.
M a s n  o e r a r a z o  v e l . A n d a v a m a l e m a b a n d o n a r -m e a
estas suposies porque, uns instantes depois, vinha-me um frio
to horrvel, que tinha que me encolher debaixo dos cobertores
e batia os dentes sem conseguir dominar-me.
  Evidentemente, nem sempre nos podemos manter razoveis.
Outras vezes, por exemplo, fazia projetos de lei. Reformava os
castigos a aplicar. Observara j que o essencial era dar
ao c o n d e n a d o u m a o p o r t u n i d a d e . P a r a a s c o i s a s c o r r e r e m
melhor, bastava uma sobre mil. Parecia-me, por conseguinte, que
se podia obter um composto qumico cuja absoro mataria
o paciente nove vezes em dez. Este estaria a par de
tal possibilidade. Porque, pe n s a n d o b e m , c o n s i d e r a n d o a s
coisas com calma, verificava que o que havia de defeituoso
na g u i l h o t i n a e r a n  o e x i s t i r n e n h u m a p o s s i b i l i d a d e d e
salvao, absolutamente nenhuma. A morte do paciente, em suma,
era decidida de uma vez para sempre. Era um caso arrumado,
uma combinao que no mais se podia desfazer, um acordo
resolvido e sobre o qual no se podia voltar atrs.
     S e , p o r e x c e   o , o m a q u i n i s m o f a l h a v a , r e c o m e  a va-se
do princpio. Como conseqncia, o aborrecido  que isto levava
o condenado a desejar o bom funcionamento da mquina. Digo que
 o lado defeituoso da coisa. O que, num determinado sentido,
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 verdade. Mas por outro lado, via-me obrigado a reconhecer
que residia a todo o segredo da boa organizao. Numa palavra,
o condenado sentia-se obrigado a colaborar moralmente. Era do seu
i n t e r e s s e q u e t u d o m a r c h a s s e s e m e m p e n o s . V i a -me
tambm obrigado a verificar que at aqui tinha tido sobre todos
estes problemas, idias que no eram certas.
 Julguei durante muito tempo - n  o s e i p o r q u  - que para i r
 guilhotina era preciso subir uns degraus. Creio que por causa da
Revoluo de 1789, quer dizer, por causa de tudo quanto
me ensinaram ou me mostraram em semelhante matria. Mas veio-
m e  idi a n u m a d e s t a s m a n h  s , a f o t o g r a f i a d e u m a
execuo retumbante, publicada nos jornais da poca. Na realidade
a mquina estava simplesmente no cho. Era muito mais estreita do
que eu julgava.  engraado como no me lembrei disto h mais
tempo. Na fotografia, a mquina impressionara-me como uma obra
de preciso, brilhante e acabada. Exageramos sempre as coisas que
no conhecemos. Verifiquei,ao contrrio, que era tudo muito
simples: a mquina estava ao mesmo nvel do que o homem que
para ela se dirige. Vai ter com ela, precisamente como iria ter com
uma pessoa. Sob um dado aspecto, tambm isto era aborrecido. A
imaginao poderia agarrar-se  subida ao cadafalso,  ascenso
para o cu. Enquanto aqui, o maquinismo mais uma vez esmagava
tudo: era-se morto discretamente, talvez c o m u m p o u c o d e
vergonha, mas com muita preciso.
  Havia duas coisas que nunca me saam da cabea: a madrugada da
execuo e o recurso da sentena. No deixava, no entanto, de
discutir comigo mesmo e de tentar pensar noutras coisas.
Estendia-me, olhava atravs da janela, procurava interessar-me pelo
que via. O cu tornava-se verde, a noite chegava.
Voltava a fazer um esforo para mudar o curso dos
meus pensamentos. Punha-me a escutar o corao. No era capaz
de imaginar que este barulho compassado que me acompanhava
h t a n t o t e m p o p o d i a u m d i a c e s s a r . N u n c a t i v e
verdadeira imaginao. Mas tentava imaginar, no obstante, o

                                       77
segundo em que o batimento do corao j se me no prolongaria
na cabea.
Em vo. A madrugada e o recurso no me abandonavam.
Acabava por chegar  concluso que o mais razovel era ainda no
me tentar dominar.
  Sabia que vinham de madrugada. Ocupei as minhas noites,
em suma, a esperar por esta madrugada. Nunca gostei que
me surpreendessem. Quando me acontece alguma coisa, prefiro
estar presente: Eis porque, no final, acabei por dormir um pouco
de dia, enquanto, durante toda a noite, esperava pacientemente que
a luz nascesse no negro do cu.
   O mais difcil, era a flora duvidosa em que eles
geralmente operavam. Depois da meia-noite, esperava e escutava.
Nunca a minha orelha sentiu tantos rudos e distinguiu sons
to tnues. Alis, p o s s o a f i r m a r q u e , d e c e r t o m o d o , t i v e
sorte durante todo este perodo, pois nunca cheguei a ouvir passos.
A me costumava dizer que nunca se  completamente infeliz.
Mesmo na priso continuava a concordar com ela, quando o cu se
coloria e que um novo dia entrava na minha cela. Porque, logo que
ouvisse passos, o meu corao era capaz de rebentar.
Mesmo se o mnimo som me atirasse de encontro  porta,
mesmo s e , a o r e l h a c o l a d a  m a d e i r a , e u e s p e r a s s e
desvairadamente at ouvir a minha prpria respirao, assustado
por a achar to rouca, e se, tal a agonia de um co, ao fim desse
perodo o meu corao rebentasse, tinha ganho ao menos mais vinte
e quatro horas.
  Durante todo o dia, podia pensar no recurso da sentena.
Julgo que tirei o melhor partido possvel desta idia.
Calculava os meus efeitos e obtinha assim destas reflexes o melhor
dos rendimentos.
  Comeava sempre pela suposio mais pessimista:
 O recurso  rejeitado. "Pois bem, morrerei". Mais cedo do que os
outros, mas sabem que a vida no vale a pena ser vivida. No fundo,
no ignorava que morrer aos trinta, aos setenta anos tanto faz, pois
em qualquer dos casos outros homens e outras mulheres vivero, e
                                        78
isto durante milhares de anos. No fim de contas isto era claro como
a gua. Hoje ou daqui a vinte anos, era  mesma eu que morria.
Neste momento, o que me incomodava um pouco no meu raciocnio
era esse frmito terrvel que me percorria, ao pensar nesses vinte
anos para a f r e n t e . O q u e t i n h a a f a z e r , e r a a b a f a r e s t a
sensao, imaginando o que seriam os meus pensamentos daqui a
vinte anos, quando chegasse outra vez  hora da morte. Desde
o momento que se morre,  evidente que no importa como
e quando. Portanto - e o difcil era no perder de vista o que este
"portanto" representava no meu raciocnio - portanto, o melhor era
aceitar a rejeio do meu recurso.
  Neste momento, apenas neste momento, conquistava, por
assim dizer o direito, dava a mim mesmo licena de abordar a
segunda hiptese: a de anularem a sentena capital. O maador era
que tinha de tornar menos fogoso esse impulso do sangue e do
corpo que me picava os olhos e me comunicava uma alegria
insensata.
Era preciso que me aplicasse a reduzir esse grito, a venc-lo pela
lgica. Era preciso que eu estivesse natural, mesmo nesta hiptese,
para tornar mais plausvel a minha resignao na primeira hiptese.
Quando o conseguia, ganhara uma hora de calma. E isto era
importante.
  Foi num momento assim que mais uma vez me recusei a receber o
padre da priso. Estava estendido e adivinhava a chegada da noite
de vero a uma certa tonalidade loira do cu. Acabava de rejeitar o
recurso e podia sentir as ondas do sangue circularem regularmente
no meu corpo. No tinha necessidade nenhuma de receber o
capelo. Pela primeira vez, h muito tempo, pensei em Maria. H
muitos dias que no me escrevia.
Pus-me a pensar, e disse de mim para mim que ela talvez se tivesse
cansado de ser a amante de um condenado  morte.
Veio-m e  c a b e  a q u e e l a e r a c a p a z d e e s t a r d o e n t e o u d e
ter morrido, o que pertencia  ordem das coisas. Como o poderia
eu s a b e r , a l i  s , j  q u e , a l  m d o s n o s s o s c o r p o s a g o r a
separados, nada nos ligava, nada nos lembrava um ao outro. A
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partir desse momento, a recordao de Maria passaria a ser-
me indiferente. Morto, deixava de interessar. Afigurava -se-
me normal esta atitude, assim como compreendia muito bem que
as pessoas me esquecessem depois da minha morte. J no
tinham nada a fazer comigo. Nem sequer podia dizer que me
custava pensar em semelhante possibilidade. No h, no fundo,
nenhuma idia a que no nos habituemos.
  Foi neste instante preciso que o capelo entrou na minha cela.
Quando o vi, senti um pequeno estremecimento. Ele deu por isso e
disse-m e p a r a n  o t e r m e d o. Redargi que, habitualmente, o
capelo vinha noutra altura. Respondeu-me que era uma visita
amigvel, que nada tinha a ver com o meu recurso, a respeito do
qual nada sabia: Sentou-se na minha cama e convidou-me a ir para
o p dele. Recusei-me. Achei que tinha, no entanto, um ar muito
doce.
  Ficou uns momentos sentado, os cotovelos sobre os joelhos,
a cabea baixa, a olhar para as mos. Estas eram finas
e musculosas, lembravam-m e d o i s a n i m a i s  g e i s : E s f r e g o u -
as lentamente:uma contra a outra. Depois assim ficou, sempre
de cabea baixa, durante tanto tempo que, por instantes, tive
a impresso de o ter esquecido.
   Mas pouco depois levantou bruscamente a cabea e olhou-me
de frente: "Porque recusa as minhas visitas?" Respondi que
no tinha f. Quis saber se tinha a certeza e eu respondi que
no valia a pena fazer-me essa pergunta. Deixou-se cair para trs e
encostou-se  parede, as mos postas em cima das coxas.
Quase sem ter o ar de me falar, observou que s vezes
nos julgvamos certos de alguma coisa quando, na realidade,
no tnhamos certeza nenhuma. Eu no dizia nada. Olhou-me
e interrogou-me: "Qual  a sua opinio a este respeito?"
Repliquei que era possvel. Em todo o caso, eu no estava talvez
certo do que realmente me interessava, mas estava certo do que
no me interessava. E justamente, este assunto era dos que no me
interessavam. Afastou os olhos e, sempre sem mudar de posio,
perguntou-me se eu no falava assim por excesso de desespero.
                                      80
Expliquei-lhe que no me sentia desesperado. Tinha apenas medo,
como era natural. "Deus o ajudar, afirmou ento".
"Todos os que conheci no seu caso se voltavam para ele".
Reconheci que estavam no seu direito. Isso provava tambm
que tinham tempo. Quanto a mim, que ningum me ajudasse
e justamente faltava-me tempo para me interessar pelo que no
me interessava.
  Neste momento, esboou com as mos um gesto de irritao, mas
levantou-se e arranjou as pregas da sotaina. Quan do acabou,
dirigiu-me a palavra tratando-me por "meu amigo": se me falava
desta forma, no era por eu ser um condenado  morte, na sua
opinio, todos ns ramos condenados  morte.
Mas eu interrompi-o, dizendo que no era a mesma coisa e que, de
qualquer modo, no me consolava com isso. "Decerto, aprovou ele.
Mas se no morrer agora, morrer mais tarde: Voltar a pr-se o
mesmo problema. Como ir abordar a terrvel prova?"
Respondi que a abordaria exatamente como agora.
  O u v i n d o i s t o l e v a n t o u -s e e f i t o u -m e n o s o l h o s : E r a
uma experincia que eu bem conhecia. Realizava-a muitas vezes
com Manuel ou com Celeste e, em geral, eram eles quem desviavam
os o l h o s . P e r c e b i l o g o q u e o c a p e l  o t a m b  m a
conhecia perfeitamente: o olhar no lhe tremia. E a voz tambm no
Lhe tremia, quando disse:
   "No tem ento nenhuma esperana e consegue viver com
o pensamento de que vai morrer inteiramente?" "Sim", respondi eu.
B a i x o u e n t  o a c a b e  a e v o l t o u a s e n t a r -s e . D i s s e q u e
me lamentava. Achava que tal atitude era impossvel de suportar.
Quanto a mim, comeava a estar cansado. Desviei -me por
minha vez e fui pr-me debaixo d a c l arabia. Estava encostado
 pared e . S e m o s e g u i r c o m m u i t a a t e n   o , p e r c e b i q u e
recomeava a interrogar-m e . F a l a v a c o m u m a v o z i n q u i e t a e
apressada.
Compreendi que estava emocionado e escutei-o melhor.
  Dizia-me ter a certeza de que o meu recurso seria aceite, mas que
levava aos ombros o peso de um pecado de que
                                          81
devia desembaraar-me. Na opinio dele, a justia dos homens no
era nada e a justia de Deus era tudo. Observei que fora a primeira
que me condenara. Respondeu-me que ela nem por isso me lavara
do meu pecado. Disse-lhe ento que no sabia muito bem o que era
um pecado. Tinham-me apenas dito que era culpado. Se estava
culpado, ia pag-lo e nada mais me podiam pedir. Neste momento
levantou-se e eu pensei que, nesta cela to estreita, se quisesse
mover-se, no tinha por onde escolher: S podia era sentar-se.
   Eu olhava para o cho. O padre deu um passo para mim e deteve-
se, como se no ousasse avanar: Olhava o cu atravs das grades.
"Est enganado, meu filho, disse ele, poderiam pedir-lhe ainda mais.
E talvez lho peam. - Mas o qu? - Poderiam pedir-lhe para ver. -
Ver o qu?" O padre olhou em sua volta e respondeu, com uma voz
subitamente muito fatigada:
Sei que todas estas pedras suam dor. Mas, no fundo do corao, sei
tambm que os mais miserveis de vs viram sair da obscuridade
uma face divina.
   esta face que Lhe pedem para ver.
  Animei-m e u m p o u c o . D i s s e -lhe que olhava estas paredes
h m e s e s e m e s e s . N  o h a v i a n a d a n o m u n d o q u e e u
conhecesse melh o r . T a l v e z , d e f a t o , h  m u i t o t e m p o , e u
houvesse procurado nelas uma face. Mas essa face tinha a cor do
cu e a chama do desejo: era a de Maria. Procurara-a em vo.
Agora, acabara-se. E, em qualquer caso nunca vira esse suor surgir
da pedra.
  O capelo olhou-me com uma espcie de tristeza. Eu estava agora
completamente encostado  parede.
 O dia escorria-me pela testa. Disse algumas palavras que
no percebi e pediu-me, muito depressa, se podia abraar-me:
"No", respondi. Voltou-se de costas e dirigiu-se para a parede,
sobre a qual passou lentamente a mo. "Gosta assim tanto desta
terra?" No respondi nada.
  Deixou-se ficar voltado muito tempo. A sua presena pesava-me e
irritava-me. Ia dizer-lhe para se ir embora, quando, virando-se para
mim, exclamou de repente: "No, no posso acredit-lo. Tenho a
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certeza de que j lhe aconteceu desejar uma outra vida". Respondi-
lhe que com certeza, mas isso era o mesmo do que desejar ser rico,
nadar muito depressa ou ter uma boca mais bem feita. Era da
mesma ordem. Mas ele deteve-me e quis saber como imaginava eu
essa outra vida.
Repliquei: "Uma vida onde me pudesse lembrar desta vida,".
E disse-lhe que j bastava. Queria continuar a falar destas coisas,
mas eu avancei para ele e expliquei-Lhe pela ltima vez que j no
tinha muito tempo  minha frente. No queria perd-lo com
discusses. Tentou mudar de assunto, perguntando-me por que
motivo eu o tratava por "senhor", e no por "meu pai". Isto
enervou-me e respondi que ele no era meu pai: e estava do lado
dos outros.
  "No, meu filho, disse ele pondo-me a mo no ombro. Estou ao seu
lado, mas no o pode saber, porque o seu corao est cego.
Rezarei por si". Ento, no sei porqu, qualquer coisa rebentou
dentro de mim. Pus-me a gritar em altos berros e insultei-o e disse-
Lhe para no rezar e que, mesmo que houvesse um Inferno no me
importava, pois era melhor ser queimado no fogo do que
desaparecer. Agarrara-o pela gola da sotaina. Atirava para cima dele
todo o fundo do meu corao com impulsos de alegria e de clera.
Tinha um ar to confiante, no tinha? Mas nenhuma das suas
certezas valia um cabelo de mulher. Nem sequer tinha a certeza de
estar vivo, j que vivia como um morto. Eu, parecia ter as mos
vazias. Mas estava certo de mim mesmo, certo de tudo, mais certo
do que ele, certo da minha vida e desta morte que se aproximava.
Sim, no sabia mais nada do que isto. Mas ao menos segurava
esta verdade, tanto como esta verdade me segurava a mim. Tinha
tido razo, tinha ainda razo, teria sempre razo. Vivera de
uma dada maneira e poderia ter vivido de outra dada maneira.
 Fizera isto e no fizera aquilo. No fizera uma coisa e fizera outra. E
depois? Era como se durante este tempo todo tivesse estado 
espera deste minuto... E dessa madrugada em que seria justificado.
Nada, nada tinha importncia e eu sabia bem porqu.

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  Tambm ele, sabia porqu. Do fundo do meu futuro, durante toda
esta vida absurda que eu levara, subira at mim atravs dos anos
que ainda no tinham chegado, um sopro obscuro, e esse sopro
igualava na sua passagem tudo o que me propunham nos anos, no
mais reais, em que eu vivia. Que me importava a morte dos outros,
o amor de uma me, que me importava o seu Deus, as vidas que se
escolhem, os destinos que se elegem j que um s destino podia
eleger-me a mim prprio e, comigo, milhares de privilegiados que,
diziam como ele, ser meus irmos? Compreendia, compreendia o
que e u q u e r i a d i z e r ? T o d a a gente era privilegiada. S havia
privilegiados. Tambm os outros seriam um dia condenados.
Tambm ele seria um dia condenado. Que importava se, acusado de
um crime, era executado por no ter chorado no enterro da minha
me? O co de Salamano valia tanto como a mulher dele. A mulher
autmato era to culpada como a Parisiense que no se casara ou
como Maria, que queria que eu casasse com ela. Que importava
que fosse meu amigo, ao mesmo ttulo que Celeste valia mais
do que ele? Que importava que oferecesse hoje a sua boca a
um n o v o M e u r s a u l t ? C o m p r e e n d i a , c o m p r e e n d i a e l e e s t e
condenado? E que do fundo do meu futuro... Quase atabafava, ao
gritar estas coisas. Mas j me arrancavam o padre das mos, j os
guardas me ameaavam. Foi ele, no entanto, quem os acalmou.
Olhou-me uns instantes em silncio. Tinha os olhos cheios de
lgrimas.
Voltou-se e foi-se embora.
  Sentia-me agora outra vez calmo. Estava estafado e deixei-me cair
sobre a cama. Julgo que dormi, pois acordei com estrelas por sobre
a minha cabea. Subiam at mim rudos do campo.
Cheiros da noite da terra e do sol refrescavam-me as fontes. A paz
maravilhosa deste vero adormecido entrava em mim como
uma mar. Neste momento, e no limite da noite, soaram apitos.
Anunciavam possivelmente partidas para um mundo que me
era p a r a s e m p r e i n d i f e r e n t e . P e l a p r i m e i r a v e z , h  m u i t o
tempo, pensei na minha me. Julguei ter compreendido porque 
que, no fim de uma vida, arranjara um "noivo", porque  que
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fingira recomear. Tambm l, em redor desse asilo onde as vidas
se apagavam, a noite era como uma treva melanclica. To perto
da morte, a minha me deve ter-se sentido libertada e pronta a tudo
reviver. Ningum, ningum tinha o direito de chorar sobre ela.
Tambm eu me sinto pronto a tudo reviver. Como se esta grande
clera me tivesse limpo do mal, esvaziado da esperana, diante
desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu abria-me pela
primeira vez  terna indiferena do mundo. Por o sentir to parecido
comigo, to fraternal, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que
tudo ficasse consumado, para que me sentisse menos s, faltava-me
desejar que houvesse muito pblico no dia da minha execuo e que
os espectadores me recebessem com gritos de dio.




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